Ex-comissária tem câncer reconhecido como doença profissional e caso pode ajudar outras mulheres

Após dois anos e meio de disputa, Sophie Lainault conseguiu na França o reconhecimento da origem profissional de seu câncer de mama e espera ajudar outras tripulantes.
Mulher de cabelos grisalhos sorri para a câmera em retrato ao ar livre. A comissária provou que o câncer de mama dela era uma doença profissional.
Sophie Lainault, ex-comissária da Air France, teve o câncer de mama reconhecido pela Justiça francesa como doença profissional após 30 anos de carreira na aviação. (Foto: reprodução Quest France)

Depois de passar 30 anos trabalhando em voos da Air France, Sophie Lainault conseguiu que a Justiça francesa reconhecesse seu câncer de mama como uma doença profissional. A decisão considerou as condições às quais ela esteve exposta durante a carreira, entre elas trabalho noturno, radiação cósmica e fumo passivo.

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Sophie, hoje com 59 anos e em remissão, trabalhou na companhia entre 1989 e 2019, primeiro como comissária e depois como chefe de cabine. Nesse período, acumulou mais de 12.600 horas de voo, sendo mais de 6.500 durante a noite.

Segundo a advogada da ex-comissária e o sindicato CFDT, é o primeiro reconhecimento desse tipo no setor aéreo francês. Isso não significa, porém, que a Justiça passe a reconhecer automaticamente o câncer de mama de outras profissionais da aviação como doença relacionada ao trabalho.

O julgamento analisou especificamente a trajetória profissional de Sophie e as exposições acumuladas durante três décadas. Ainda assim, o caso mostra uma possibilidade para outras trabalhadoras com histórico semelhante: investigar se as condições profissionais podem ter contribuído para a doença e buscar uma avaliação individual.

A Justiça reconhece câncer como doença profissional após dois anos e meio

Sophie enfrentou um processo de cerca de dois anos e meio até conseguir uma decisão favorável. Antes de recorrer à Justiça, dois comitês regionais responsáveis pela análise de doenças profissionais haviam concluído que o vínculo entre o câncer e seu trabalho não estava estabelecido.

O Tribunal Judicial de Bayonne chegou a outra conclusão ao analisar conjuntamente três elementos da carreira da ex-comissária: o trabalho noturno, a exposição regular à radiação ionizante de origem cósmica e o fumo passivo. Durante parte da trajetória de Sophie, passageiros ainda podiam fumar nos aviões da Air France; a companhia proibiu a prática em 2000.

O tribunal também considerou que, no caso analisado, os médicos não identificaram outros fatores de risco de origem genética ou ligados ao estilo de vida que explicassem a doença. A Justiça usou a combinação das exposições profissionais acumuladas ao longo dos 30 anos para estabelecer uma relação direta e essencial entre o trabalho e o câncer.

A decisão, proferida em julho de 2026, tornou-se definitiva porque não houve recurso.

Estudos relacionam trabalho noturno ao risco de câncer

Um dos fatores considerados no processo de Sophie já é acompanhado há anos por pesquisadores. A Agência Internacional para Pesquisa sobre o Câncer (IARC), ligada à Organização Mundial da Saúde, classifica o trabalho noturno como provavelmente carcinogênico para humanos.

A avaliação considera trabalho noturno aquele realizado durante o período em que a população normalmente estaria dormindo e inclui também viagens aéreas que atravessam diferentes fusos horários. Uma das principais consequências desse tipo de rotina é a alteração do ritmo circadiano, responsável por organizar funções do organismo ao longo do dia e da noite.

A IARC aponta evidências limitadas em humanos para alguns tipos de câncer, entre eles o de mama. Essa classificação não significa que trabalhar à noite provoque necessariamente câncer, nem permite determinar individualmente a causa de uma doença. Ela identifica um risco que precisa ser analisado junto a outros fatores.

No processo de Sophie, por exemplo, o tribunal não considerou apenas as mais de 6.500 horas trabalhadas à noite. A avaliação reuniu essa rotina à exposição à radiação cósmica e ao fumo passivo acumulados durante a carreira.

Por que a Justiça pôde reconhecer uma doença que não está na lista oficial

O câncer de mama não faz parte das tabelas francesas de doenças profissionais. Isso torna o caso de Sophie diferente de situações nas quais determinada enfermidade e determinadas atividades já aparecem relacionadas previamente pelo sistema.

A legislação francesa, porém, mantém uma possibilidade para doenças que estão fora dessas tabelas. Segundo a Assurance Maladie, elas podem ser reconhecidas como profissionais quando ficar demonstrado que foram essencial e diretamente causadas pelo trabalho habitual e quando provocarem morte ou incapacidade permanente de pelo menos 25%.

Foi justamente a demonstração desse vínculo que esteve no centro da disputa de Sophie. Os dois comitês que avaliaram seu pedido inicialmente não consideraram comprovada a relação entre sua atividade e o câncer. O Tribunal Judicial de Bayonne, por outro lado, avaliou que a combinação das exposições durante 30 anos permitia estabelecer esse nexo no caso concreto.

Isso também ajuda a dimensionar o alcance da decisão. O julgamento não criou uma regra segundo a qual comissárias com câncer de mama terão automaticamente direito ao reconhecimento. Outra profissional precisaria apresentar seu próprio histórico de trabalho, exposições e elementos médicos para que a relação fosse analisada.

Reconhecimento permite que Sophie antecipe a aposentadoria

Para Sophie, a decisão já trouxe um efeito concreto. Segundo relatou à AFP, o reconhecimento permite antecipar sua aposentadoria. O sistema francês também pode prever indenizações relacionadas às doenças profissionais, conforme as condições e o grau de incapacidade reconhecido em cada caso.

A Air France não foi parte do processo. A companhia afirmou que não recebeu os fundamentos utilizados pelo tribunal e ressaltou que considera a saúde e a segurança dos funcionários uma prioridade. O julgamento não concluiu que a empresa tenha cometido uma falha específica de segurança.

O alcance mais relevante do caso, portanto, está no reconhecimento de que diferentes exposições acumuladas ao longo de uma carreira podem ser examinadas em conjunto. Para profissionais que passaram anos em jornadas noturnas e outras condições semelhantes, a decisão de Bayonne oferece um caso concreto de como esse histórico de câncer pode entrar na análise sobre a possível origem profissional de uma doença.

Foto de Monique de Carvalho

Monique de Carvalho

Jornalista formada em Comunicação Social pela Fanor, com mais de 15 anos de experiência em marketing de conteúdo, produção digital, storytelling e comunicação de impacto. Já contribuiu para os portais Razões para Acreditar e Só Notícia Boa.

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