Um novo tratamento para diabetes tipo 1 permite agir antes do aparecimento dos sintomas e pode retardar por cerca de dois anos a evolução para a fase em que a doença passa a exigir tratamento contínuo com insulina. O medicamento, chamado teplizumabe, já tem aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no Brasil.
Na prática, ele é indicado para pessoas que já apresentam sinais do diabetes tipo 1 detectáveis em exames, mas ainda não desenvolveram os sintomas típicos da doença. É nessa etapa silenciosa que o medicamento atua sobre o sistema imunológico para tentar preservar por mais tempo as células do pâncreas responsáveis pela produção de insulina.
Em estudo considerado pela Anvisa, pacientes tratados levaram cerca de 50 meses, na mediana, para avançar ao estágio clínico, enquanto no grupo que recebeu placebo esse período foi de aproximadamente 25 meses. A diferença equivale a cerca de dois anos.
Isso não significa que o teplizumabe cure ou impeça definitivamente o diabetes tipo 1. O benefício demonstrado está em retardar a progressão da doença e, assim, prolongar o período antes da necessidade de lidar com sua manifestação clínica.
Tratamento para diabetes tipo 1 começa antes dos sintomas
O diabetes tipo 1 é uma doença autoimune. Isso significa que o próprio sistema imunológico ataca, por engano, as células do pâncreas que produzem insulina, hormônio responsável por ajudar a controlar a glicose no sangue.
Esse processo pode ser identificado antes de sintomas como sede excessiva, aumento da vontade de urinar, perda de peso e cansaço aparecerem. No chamado estágio 2, exames conseguem detectar dois ou mais autoanticorpos relacionados ao diabetes, além de alterações nos níveis de glicose.
É para pessoas nessa situação que o teplizumabe foi aprovado. No Brasil, a indicação inclui adultos e crianças a partir dos 8 anos que tenham o estágio 2 do diabetes tipo 1 devidamente confirmado.
Dois anos representam uma mediana, não um prazo garantido
O estudo TN-10 acompanhou 76 participantes com alto risco de progressão. Destes, 44 receberam teplizumabe e 32 receberam placebo. O tratamento foi administrado por via intravenosa durante 14 dias consecutivos.
No acompanhamento de longo prazo considerado pela Anvisa, 41% dos pacientes tratados haviam avançado para o diabetes tipo 1 clínico, em comparação com 69% daqueles que receberam placebo. Os resultados mostraram que o medicamento retardou a progressão da doença.
Os cerca de dois anos de diferença representam uma mediana observada entre os participantes, e não um período garantido para cada paciente. A resposta ao tratamento pode variar, e mesmo quem recebe o medicamento pode posteriormente avançar para o estágio em que precisa de insulina.
Quem pode receber o teplizumabe
O medicamento não é destinado a qualquer pessoa que tenha histórico familiar ou receio de desenvolver diabetes. Antes da indicação, é necessário confirmar por exames que o paciente já está no estágio 2 do diabetes tipo 1.
Também não se trata de uma alternativa à insulina para quem já apresenta a forma clínica da doença. O objetivo é atuar em uma janela anterior, quando o processo autoimune já está em andamento, mas os sintomas ainda não apareceram.
Como outros medicamentos que interferem no sistema imunológico, o teplizumabe pode provocar efeitos adversos e exige acompanhamento médico. A Anvisa cita, entre os riscos, síndrome de liberação de citocinas e infecções graves. Por isso, a avaliação de quem pode receber o tratamento deve ser individualizada.
Para os pacientes que atendem aos critérios, a principal mudança está justamente no momento de agir: o diabetes tipo 1 pode ser identificado antes dos sintomas e tratado nessa fase, com a possibilidade de ganhar mais tempo antes da progressão da doença.