Uma crise epiléptica pode dar um pequeno sinal antes de começar. Cientistas identificaram que os neurônios entram em um breve período de “silêncio” antes da intensa atividade elétrica característica da crise. A descoberta pode ajudar, no futuro, equipamentos automatizados a reconhecer esse momento e agir antes que ela aconteça.
Esse intervalo dura apenas 40 a 160 milissegundos. É rápido demais para uma pessoa perceber e reagir, mas, segundo os pesquisadores, pode ser suficiente para que um dispositivo identifique a alteração e dispare automaticamente um estímulo elétrico no cérebro.
A equipe encontrou o padrão tanto em modelos computacionais quanto em dados eletrofisiológicos de pacientes com epilepsia. Os registros humanos analisados incluíram regiões como o hipocampo e o córtex, reforçando que o silêncio neuronal não apareceu somente nas simulações.
O estudo, publicado na revista científica Scientific Reports, reuniu pesquisadores da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal do ABC (UFABC) e Universidade Estadual de Nova York, nos Estados Unidos.
Por que o “silêncio” pode antecipar uma crise epiléptica?
A descoberta parece contraditória porque a epilepsia está associada justamente à atividade excessiva e sincronizada dos neurônios. Antes dessa descarga, porém, a equipe observou que a rede passa por um período maior de inatividade.
Os pesquisadores relacionaram essa mudança à dinâmica dos canais lentos de potássio, estruturas que ajudam a controlar a excitabilidade dos neurônios. À medida que o tempo de silêncio aumenta e ultrapassa determinado limite, a rede neuronal se aproxima do estado de sincronização observado durante uma crise.
Esse comportamento permitiu transformar a duração do silêncio em um possível biomarcador. Na prática, em vez de reconhecer apenas uma crise que já começou, um sistema poderia buscar justamente o padrão que aparece imediatamente antes dela.
Estímulo reduziu crises em até 93% nas simulações
Depois de identificar o sinal, os cientistas testaram nos modelos computacionais se seria possível usá-lo para escolher o momento de uma intervenção. Quando o silêncio indicava a aproximação da crise, uma pequena parcela dos neurônios recebia estimulação elétrica.
Nas simulações, a estratégia conseguiu reduzir em até 93% a duração da atividade semelhante à crise. O resultado ainda não significa que o mesmo efeito já tenha sido obtido em pacientes: a intervenção preventiva foi testada nos modelos computacionais.
A ideia dos pesquisadores é combinar, futuramente, o novo biomarcador com tecnologias de neuromodulação e dispositivos que já acompanham a atividade cerebral. Hoje, segundo Fernando da Silva Borges, coautor do estudo, esses equipamentos detectam outros sinais quando a crise já começou.
Descoberta pode beneficiar casos difíceis de controlar
A possibilidade ganha importância principalmente porque nem todas as pessoas conseguem controlar a epilepsia com medicamentos. Dados da literatura citados pela FAPESP indicam que 30% a 40% dos pacientes não respondem ao tratamento farmacológico.
Para esses casos, técnicas de estimulação cerebral já estão entre as alternativas existentes. O que os cientistas propõem agora é usar o período de silêncio para indicar com mais antecedência quando a estimulação deveria acontecer.
Antes que isso se transforme em um tratamento preventivo, a estratégia ainda precisa avançar além das simulações e ser validada clinicamente. A contribuição imediata da pesquisa é outra: identificar um sinal mensurável antes da crise epiléptica, criando uma janela de poucos milissegundos que poderá orientar novas formas de previsão e intervenção.