Balas dentro de saquinhos, panelas cheias de caruru e crianças chamadas para comer antes dos adultos. A celebração de São Cosme e Damião ganhou no Brasil costumes tão próprios que alguns deles parecem esconder uma história em cada detalhe.
Neste fim de semana, a data volta a movimentar casas, terreiros e comunidades religiosas. Para os católicos, a memória de São Cosme e São Damião ocorre em 26 de setembro. Já o dia 27 permanece fortemente ligado às celebrações da Umbanda, do Candomblé e à tradição popular brasileira.
É justamente nesse encontro de referências religiosas e culturais que surgiram algumas das práticas mais conhecidas da festa no país. Os doces, por exemplo, não fazem parte originalmente da história dos dois santos médicos: ganharam espaço sobretudo a partir da associação entre Cosme e Damião e os Ibejis nas tradições afro-brasileiras.
Na Bahia, a celebração ganhou uma expressão ainda mais marcante. O Caruru de São Cosme e São Damião foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia em 2024, registro que inclui tanto a celebração quanto os saberes relacionados à tradição.
São Cosme e Damião e o curioso caruru dos sete meninos
Em muitos carurus tradicionais da Bahia, os adultos precisam esperar. Primeiro, são servidas sete crianças — origem do nome popular “caruru dos sete meninos”. Só depois que elas terminam é que os demais convidados começam a comer.
Há casas em que o ritual fica ainda mais curioso para quem nunca o acompanhou. Pesquisas da Universidade Federal da Bahia (UFBA) registram crianças sentadas juntas, diante de uma mesma gamela ou bacia, comendo o caruru com as mãos. A forma de servir, porém, pode mudar conforme a família ou a comunidade.
O sete também não aparece por acaso dentro dessas tradições. Registros acadêmicos sobre o costume baiano relacionam o grupo a Cosme, Damião e outros personagens presentes na tradição popular. Por isso, o número passou a integrar o ritual de alguns carurus oferecidos em agradecimento ou cumprimento de promessa.
Na tradição católica, São Cosme e Damião ficaram conhecidos por cuidar sem cobrar
Para a Igreja Católica, São Cosme e Damião são lembrados como irmãos, médicos e mártires cristãos. A tradição os apresenta como profissionais que atendiam doentes sem cobrar pelo cuidado, razão pela qual também ficaram conhecidos como “anárgiros”, expressão usada para aqueles que exerciam a medicina gratuitamente. O próprio Vaticano registra essa característica ao citar os irmãos como santos que cuidavam dos pobres sem pagamento.
A devoção atravessou séculos e chegou a ocupar um lugar importante na liturgia católica. Cosme e Damião são citados nominalmente no Cânon Romano, uma das orações eucarísticas mais antigas e tradicionais da Igreja, ao lado de outros mártires venerados pelo catolicismo.
A associação com o cuidado também permanece na forma como a Igreja apresenta os santos aos fiéis. Em uma audiência realizada em 26 de setembro de 2012, o então papa Bento XVI recordou Cosme e Damião como os “santos médicos” e relacionou a memória dos irmãos ao cuidado com quem sofre.
E por que São Cosme e Damião são lembrados com doces?
Para muita gente, especialmente fora da Bahia, a lembrança mais forte do dia 27 são os saquinhos cheios de balas, pirulitos, cocadas e outras guloseimas entregues às crianças.
A tradição brasileira está ligada ao encontro entre a devoção aos santos católicos e referências religiosas de origem africana. Cosme e Damião passaram a ser associados aos Ibejis, ligados à infância, enquanto doces, brinquedos e outras ofertas aparecem em diferentes celebrações afro-brasileiras.
Outra curiosidade está nas próprias imagens. Embora Cosme e Damião sejam dois, algumas representações brasileiras mostram uma terceira criança, identificada em determinadas tradições como Doum. A presença desse terceiro personagem também nasceu no contexto religioso e cultural brasileiro e não significa que a tradição histórica católica considere os santos trigêmeos.
No fim, os costumes ajudam a explicar por que a celebração de São Cosme e Damião ganhou uma identidade tão particular no Brasil. Entre doces distribuídos na rua, crianças servidas primeiro e grandes panelas de caruru, uma devoção antiga acabou também se tornando espaço de encontro, memória familiar e preservação de tradições transmitidas entre gerações.