Eduarda de Souza Araújo tinha apenas 15 anos quando decidiu que queria ajudar o pai de uma forma que mudaria a vida dos dois. Rafael Pereira de Souza enfrentava uma doença renal e dependia da hemodiálise. Ao compreender melhor o que significava aquela rotina, a adolescente decidiu que, quando pudesse, doaria um de seus rins.
A vontade permaneceu pelos anos seguintes. Eduarda chegou à maioridade, continuou buscando informações e, aos 21 anos, conseguiu seguir com as avaliações necessárias para saber se poderia ser doadora do pai.
O transplante ocorreu em 20 de janeiro de 2026, no Hospital Universitário Walter Cantídio (HUWC), em Fortaleza. A cirurgia transcorreu sem complicações relatadas pela equipe: Eduarda deixou o hospital três dias depois, enquanto Rafael recebeu alta após oito dias.
Para o pai, o resultado significou o fim de uma rotina que durava 14 anos. Desde o transplante, Rafael deixou a hemodiálise e passou a fazer acompanhamento ambulatorial mensal.
Filha doa rim após decisão que começou aos 15 anos
Eduarda começou a entender melhor a doença renal quando passou a acompanhar o tratamento de um tio que também fazia hemodiálise. A experiência fez com que ela percebesse o que o próprio pai enfrentava longe da família.
Na época, Rafael vivia em Fortaleza, enquanto a filha ainda estava no Maranhão. Em 2022, Eduarda se mudou para a capital cearense e passou a morar com ele. A proximidade também permitiu que acompanhasse de perto consultas e o tratamento.
Antes disso, ela já havia procurado informações sobre a possibilidade de doar e feito um exame para descobrir seu tipo sanguíneo. Pai e filha são A positivo. Rafael, porém, tinha receio de que ela fosse jovem demais para enfrentar uma cirurgia e temia possíveis impactos sobre a saúde da filha.
A decisão de Eduarda permaneceu. Em 2025, ela acompanhou o pai a uma consulta no HUWC e conversou diretamente com a equipe sobre a possibilidade da doação. A partir dali, começaram os exames e avaliações, um processo que levou cerca de seis meses até o transplante.
Doação exige avaliação para proteger quem entrega o rim
A vontade de ajudar um familiar é apenas uma das etapas para uma doação em vida. O Ministério da Saúde estabelece critérios para proteger a pessoa que pretende entregar o órgão.
No caso de um rim, o doador precisa ter capacidade jurídica e boas condições de saúde. Antes da cirurgia, passa por investigação clínica, exames laboratoriais e de imagem. A equipe também deve esclarecer os riscos e verificar se o procedimento pode ocorrer dentro de limites considerados aceitáveis para a saúde do doador.
Eduarda passou por esse processo até que os profissionais concluíssem que ela tinha condições de doar. A avaliação também confirmou a compatibilidade necessária entre filha e pai.
Casos como o deles representam uma parcela menor dos transplantes renais realizados no Ceará. Em 2025, o Estado registrou 264 transplantes de rim: 244 utilizaram órgãos de doadores falecidos e 20 foram realizados com doadores vivos.
Pai deixa tratamento após 14 anos
Rafael descobriu a insuficiência renal aos 28 anos, quando a doença já estava em estágio avançado. A partir daí, iniciou a hemodiálise e passou anos dependendo das sessões que substituíam parte do trabalho que seus rins já não conseguiam realizar.
Ele chegou a Fortaleza em 2017 em busca da possibilidade de um transplante. Durante parte desse período, enfrentou o tratamento longe da família e aguardou por um órgão de doador falecido.
A chegada de Eduarda à cidade mudou também essa espera. A menina que aos 15 anos tinha decidido ajudar o pai chegou aos 21 ainda determinada a cumprir aquele desejo.
Depois da cirurgia, Rafael não precisou mais das sessões de hemodiálise três vezes por semana e segue em acompanhamento médico mensal. Eduarda também continua sendo acompanhada após a doação. Anos depois da primeira decisão, a filha doa rim e transforma em gesto concreto a vontade que começou ainda na adolescência.