Bactéria marinha do litoral cearense gera substância promissora contra câncer de próstata e ovário

A substância apresentou atividade superior à de quimioterápicos convencionais em testes laboratoriais realizados por pesquisadores da UFC e da USP.
A piericidina A1 é um produto natural produzido pelas bactérias do gênero Streptomyces. A pesquisa mostrou que a substância é muito eficiante no combate ao câncer.
Uma bactéria marinha encontrada no litoral cearense produziu uma substância que eliminou células tumorais em concentrações extremamente baixas. (Foto: Agência UFC)

Uma bactéria marinha encontrada em organismos coletados no litoral do Ceará produziu uma substância que eliminou células de câncer de próstata e ovário e apresentou resultados superiores aos observados em medicamentos usados como referência nos testes de laboratório. A descoberta foi publicada por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade de São Paulo (USP) na revista internacional Chemistry and Biodiversity.

A molécula, chamada piericidina A1, também provocou a morte de células associadas a algumas linhagens de câncer de intestino e tumores cerebrais. Os cientistas observaram esses efeitos mesmo com quantidades extremamente pequenas da substância, resultado que chamou atenção pela potência registrada nos experimentos.

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A descoberta surgiu a partir de bactérias do gênero Streptomyces encontradas em organismos marinhos coletados nas praias de Taíba e Paracuru. O estudo mostra que espécies presentes no litoral brasileiro podem fornecer compostos capazes de dar origem a futuros medicamentos.

Além dos resultados obtidos em laboratório, a pesquisa reforça a participação da ciência brasileira na busca por novos tratamentos contra o câncer. A descoberta ainda amplia o interesse por substâncias produzidas pela biodiversidade nacional.

Bactéria marinha revela potencial farmacêutico do oceano brasileiro

A substância foi identificada em microrganismos que vivem associados a zoantídeos do gênero Palythoa, animais marinhos aparentados com corais e anêmonas. Os pesquisadores analisam substâncias produzidas por esses organismos para identificar compostos que possam ser transformados em medicamentos.

Durante as análises, as cientistas chegaram a desconfiar dos resultados obtidos. A atividade observada era tão intensa que a equipe decidiu repetir os testes utilizando uma segunda metodologia para confirmar os números.

A nova avaliação reproduziu os resultados iniciais. A confirmação descartou a possibilidade de erro nas medições e validou a potência registrada para a piericidina A1.

Do litoral cearense ao laboratório

O trabalho começou com a coleta dos organismos marinhos nas praias cearenses. No Laboratório de Bioprospecção e Biotecnologia Marinha (LaBBMar), ligado ao Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM) da UFC, os pesquisadores separaram as bactérias presentes nos animais.

Após cultivar os microrganismos, a equipe extraiu as substâncias produzidas pelas bactérias para iniciar os testes contra células tumorais. Em seguida, colocou esse material em contato com células de câncer de próstata para identificar quais substâncias apresentavam maior capacidade de eliminar as células tumorais.

Um dos extratos apresentou a atividade anticâncer mais intensa entre todas as amostras analisadas. Os pesquisadores dividiram o material em diferentes frações, repetiram os testes e identificaram a substância responsável pelos resultados registrados.

Piericidina A1 corta a energia das células tumorais

Os estudos mostraram que a piericidina A1 interrompe a produção de energia das células tumorais. Sem energia suficiente para manter suas atividades, elas morrem ou reduzem sua capacidade de multiplicação.

Segundo os pesquisadores, os tumores dependem de grande consumo de energia para continuar crescendo. A substância atua justamente sobre esse mecanismo, o que ajuda a explicar os resultados observados nos experimentos.

A pesquisa ainda está em fase laboratorial. Os próximos testes deverão verificar se a substância consegue atacar células tumorais sem provocar danos importantes às células saudáveis e se pode aumentar a eficácia de tratamentos já utilizados contra o câncer.

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