Médicos mudam destino de gravidez de alto risco com estratégia inédita contra doença rara

Após perder a primeira filha para uma doença rara, um casal de médicos adotou uma estratégia preventiva durante a nova gestação. O tratamento mudou o desfecho da gravidez e permitiu o nascimento saudável de Bento.
A estratégia adotada pelos médicos mudou o destino de uma gravidez de alto risco e permitiu o nascimento saudável de Bento, em Uberaba (MG).
O tratamento preventivo começou na 14ª semana e mudou o rumo de uma gravidez de alto risco após a perda da primeira filha para uma doença rara. (Foto: reprodução / rede sociais)

Médicos conseguiram mudar o destino de uma gravidez de alto risco ao iniciar um tratamento preventivo ainda durante a gestação contra uma doença hepática rara. A estratégia foi adotada depois que um casal de médicos perdeu a primeira filha para a Doença Hepática Aloimune Gestacional (GALD) e permitiu o nascimento saudável de Bento Vasconcelos Dutra, em Uberaba (MG).

O tratamento começou na 14ª semana de gestação. Em vez de agir diretamente no bebê, a equipe realizou infusões semanais de imunoglobulina humana intravenosa na mãe, a pediatra Isabela Vasconcelos. Na prática, os médicos buscaram impedir que os anticorpos maternos repetissem a reação que havia provocado danos graves ao fígado da primeira filha durante a gestação anterior.

O diferencial do caso foi iniciar essa estratégia antes mesmo de qualquer sinal da doença. Segundo a família e a equipe médica, essa abordagem representa um caso inédito no Brasil para esse tipo de tratamento preventivo contra a GALD. Até o momento, porém, essa informação ainda não foi confirmada por publicação científica independente.

A primeira gestação revelou uma doença rara e de difícil diagnóstico

A primeira gravidez do casal evoluiu normalmente até o sétimo mês. Foi quando exames começaram a indicar restrição no crescimento do bebê e redução do líquido amniótico. A situação se agravou rapidamente e levou a um parto prematuro com 33 semanas.

Betina nasceu pesando 1,5 quilo e foi internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Neonatal. Durante a investigação, especialistas identificaram a Doença Hepática Aloimune Gestacional, condição rara em que anticorpos produzidos pela mãe atravessam a placenta e lesionam o fígado do bebê.

A recém-nascida morreu poucos dias depois, antes que pudesse receber um transplante de fígado. Foi somente após esse diagnóstico que a família descobriu outro desafio: segundo o obstetra especialista em medicina fetal Alberto Peixoto, a doença apresenta uma taxa de recorrência entre 90% e 95% nas gestações seguintes quando nenhuma medida preventiva é adotada.

Tratamento começou antes que a doença pudesse aparecer

Com o diagnóstico da primeira gestação, os médicos puderam planejar uma abordagem diferente para a gravidez de Bento. As infusões de imunoglobulina começaram antes do aparecimento de qualquer alteração fetal, com o objetivo de bloquear a ação dos anticorpos maternos.

A GALD ainda não pode ser identificada pelos exames de rotina realizados durante a gravidez. Por isso, o histórico da gestante é decisivo para que os médicos reconheçam o risco de recorrência. Quando esse risco existe, especialistas podem indicar medidas preventivas, como ocorreu no caso de Isabela.

Uma nota técnica do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (HC-UFTM), baseada em estudos internacionais, recomenda esse protocolo para gestantes com histórico compatível da doença. O documento aponta que o tratamento iniciado precocemente aumenta de forma significativa as chances de evitar uma nova lesão hepática no bebê.

Da dor nasceu uma rede de apoio para outras famílias

A experiência não mudou apenas a condução da segunda gravidez. Também transformou a forma como o casal decidiu ajudar outras pessoas.

Após a morte de Betina, Isabela e o marido, o oncologista Raul Dutra, criaram o Instituto Betina, organização que acolhe famílias em situação de vulnerabilidade social e promove ações de conscientização sobre doenças raras em Uberaba e região.

A instituição arrecada enxovais, roupas, calçados, itens de higiene, cestas básicas e lanches para pacientes e acompanhantes em tratamento. Para o casal, a iniciativa se tornou uma forma de transformar o luto em apoio a quem enfrenta desafios semelhantes.

Embora a GALD continue sendo uma doença rara e de difícil diagnóstico, especialistas afirmam que mulheres que já perderam um bebê pela enfermidade podem se beneficiar de um acompanhamento especializado antes mesmo de uma nova gestação. O caso de Bento mostra como esse planejamento pode mudar completamente o desfecho de uma gravidez de alto risco.

Foto de Monique de Carvalho

Monique de Carvalho

Jornalista formada em Comunicação Social pela Fanor, com mais de 15 anos de experiência em marketing de conteúdo, produção digital, storytelling e comunicação de impacto. Já contribuiu para os portais Razões para Acreditar e Só Notícia Boa.

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