Menino espera 8 anos por transplante de coração e ajuda a mudar lei de doação de órgãos

Dáithí Mac Gabhann esperou oito anos por um coração enquanto sua família ajudava a mudar as regras de doação de órgãos na Irlanda do Norte.
Dáithí Mac Gabhann, menino que esperou oito anos por um transplante de coração.
Dáithí Mac Gabhann esperou cerca de oito anos por um transplante de coração e se tornou símbolo da campanha que ajudou a mudar as regras de doação de órgãos na Irlanda do Norte. (Foto: reprodução/Instagram Donate4Daithi)

Dáithí Mac Gabhann tinha apenas um ano quando entrou na fila para ser transplantado, em 2018 . Depois de oito anos de espera, o menino recebeu o transplante de coração em julho de 2026, e, agora em agosto, celebrou a alta médica, encerrando uma busca que acompanhou praticamente toda a sua infância.

Apoio

Durante esse período, porém, sua história ultrapassou os limites do hospital. Dáithí e seus pais, Máirtín e Seph Mac Gabhann, participaram de uma campanha pela mudança das regras de doação de órgãos na Irlanda do Norte. O próprio governo reconheceu oficialmente a contribuição da família para a mobilização.

A mudança entrou em vigor em 1º de junho de 2023 e ficou conhecida como Lei de Dáithí. Desde então, a maioria dos adultos da Irlanda do Norte passou a ser considerada potencial doadora após a morte, a menos que manifeste a decisão de não doar ou esteja entre as exceções previstas pelas regras. As famílias continuam sendo consultadas.

Dáithí continuou esperando mesmo depois da entrada em vigor da nova legislação. O coração compatível chegou somente em julho de 2026. Aos nove anos, ele passou pelo transplante no Freeman Hospital, em Newcastle, na Inglaterra, e iniciou uma nova etapa de recuperação.

Menino com transplante de coração virou símbolo da doação de órgãos

Dáithí nasceu com síndrome do coração esquerdo hipoplásico, uma condição congênita rara em que o lado esquerdo do coração não se desenvolve adequadamente. Depois de passar por cirurgias ainda bebê, ele entrou na lista de espera por um transplante em 2018.

Enquanto aguardavam um órgão compatível, seus pais passaram a usar a experiência da família para conscientizar outras pessoas sobre a importância da doação. A campanha Donate4Dáithí também começou a defender a adoção do chamado sistema de consentimento presumido, ou “soft opt-out”, na Irlanda do Norte.

A atuação ganhou reconhecimento institucional. Quando o projeto de lei avançou na Assembleia da Irlanda do Norte, em 2022, o então ministro da Saúde Robin Swann destacou Dáithí e seus pais entre os responsáveis pela mobilização em defesa da mudança. A legislação passou a levar o nome do menino justamente em reconhecimento à campanha.

O que a Lei de Dáithí mudou na doação de órgãos

Antes da mudança, a doação dependia principalmente do consentimento expresso da pessoa ou da decisão tomada pela família. Com a nova regra, a lógica passou a funcionar de maneira diferente para grande parte dos adultos da Irlanda do Norte.

Quem se enquadra nas regras passou a ser considerado potencial doador após a morte, a menos que tenha registrado a opção de não doar. Crianças, pessoas sem capacidade para compreender a legislação e alguns residentes temporários estão entre os grupos excluídos do consentimento presumido.

Isso não significa que a família deixou de participar do processo. Mesmo com a Lei de Dáithí, parentes continuam sendo consultados quando existe a possibilidade de doação. Por isso, autoridades de saúde também recomendam que cada pessoa registre sua decisão e converse sobre o assunto com a família.

Números da doação cresceram após mudança da lei

No primeiro ano completo após a mudança, a Irlanda do Norte registrou 64 doadores falecidos em 2023/24, diante de 59 no período anterior. Segundo o Departamento de Saúde, esses doadores possibilitaram transplantes que salvaram 158 vidas.

Também houve crescimento no número de pessoas que registraram formalmente uma decisão sobre a doação. A parcela da população com uma escolha registrada no sistema passou de 53% em 2022/23 para 56% em 2023/24.

Os números mostram aumento no período posterior à entrada em vigor da lei, mas não permitem atribuir todo o avanço exclusivamente à mudança legislativa. A doação depende de fatores médicos, disponibilidade de órgãos, autorização no processo e participação das famílias. O dado mais seguro, portanto, é que a nova legislação passou a integrar um esforço mais amplo de conscientização sobre doação de órgãos.

Transplante encerrou espera de oito anos

A espera de Dáithí terminou em julho de 2026. A família anunciou que um coração compatível havia sido encontrado e que o menino passara pelo transplante no Freeman Hospital depois de aproximadamente oito anos na lista.

Nos primeiros dias depois da cirurgia, Máirtín contou que percebeu mudanças que até então eram incomuns na vida do filho. Os lábios ganharam uma coloração mais rosada e as mãos e os pés ficaram aquecidos, sinais que emocionaram a família durante o início da recuperação.

Mesmo diante da notícia esperada por tantos anos, os pais fizeram questão de lembrar a origem daquele novo coração. Ao anunciar o transplante, agradeceram ao doador e à família responsável pela decisão em um momento de luto e ressaltaram que a cirurgia marcava o início, e não o fim, do processo de recuperação.

Uma espera individual que virou mudança coletiva

A história de Dáithí reúne duas trajetórias que avançaram em tempos diferentes. A mudança na legislação ocorreu enquanto ele ainda aguardava o coração, e o transplante só aconteceu três anos depois da entrada em vigor da lei que recebeu seu nome.

Nesse intervalo, a campanha da família ajudou a manter a doação de órgãos no debate público da Irlanda do Norte. O reconhecimento oficial transformou o nome de uma criança que precisava de um transplante em referência para uma política destinada também a outras pessoas na fila.

O próprio Dáithí precisou esperar até 2026 para receber a oportunidade que sua família passou anos defendendo para outros pacientes. Aos nove anos, ele agora inicia a recuperação com um novo coração, enquanto a lei que leva seu nome continua fazendo parte do sistema de doação de órgãos da Irlanda do Norte.

Foto de Monique de Carvalho

Monique de Carvalho

Jornalista formada em Comunicação Social pela Fanor, com mais de 15 anos de experiência em marketing de conteúdo, produção digital, storytelling e comunicação de impacto. Já contribuiu para os portais Razões para Acreditar e Só Notícia Boa.

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