Celulares, tablets, plataformas digitais e, mais recentemente, ferramentas de inteligência artificial transformaram a rotina escolar em diferentes partes do mundo. Nesse cenário, o modelo educacional sueco passou a despertar interesse internacional ao propor uma pergunta que também alcança famílias, professores e gestores: como usar tecnologia na educação sem comprometer a aprendizagem das crianças?
A resposta construída pela Suécia combina inovação e evidências científicas. Em vez de ampliar o tempo de tela, a educação do país voltou a priorizar livros impressos, leitura, escrita manual e cálculo nos primeiros anos escolares, mantendo recursos digitais quando eles apresentam benefícios pedagógicos comprovados. Para apoiar essa transição, o governo destinou mais de 2,1 bilhões de coroas suecas para livros didáticos, materiais de apoio e preparação do novo currículo nacional previsto para 2028.
A iniciativa beneficia principalmente estudantes em fase de alfabetização e amplia a autonomia dos professores para escolher o recurso mais adequado em cada etapa do ensino. As novas diretrizes também diferenciam o uso da tecnologia conforme a idade dos alunos, concentrando as restrições nas séries iniciais e ampliando gradualmente a presença de ferramentas digitais ao longo da vida escolar.
O caso ganhou repercussão porque parte de um dos países mais digitalizados do mundo. Em vez de abandonar a tecnologia, o sistema educacional da Suécia passou a reorganizar seu uso com base em resultados observados nas escolas, experiência que hoje desperta interesse de governos, pesquisadores e redes de ensino em diferentes países.
Por que a Suécia revisou seu modelo educacional
Durante mais de uma década, a política do modelo educacional sueco esteve entre as mais digitalizadas do mundo. A incorporação de computadores ganhou ritmo a partir de 2009 e, em 2015, cerca de 80% dos estudantes já utilizavam notebooks ou tablets de forma individual.
Em 2019, tablets passaram a integrar oficialmente o currículo da pré-escola. A revisão começou após os resultados do PIRLS (Estudo Internacional de Progresso em Leitura) registrarem queda da pontuação sueca de 555 para 544 pontos, levando o governo a suspender a expansão da digitalização e iniciar uma ampla consulta nacional.
O processo reuniu pesquisadores, universidades, municípios, órgãos públicos e mais de 60 especialistas em tecnologia educacional. A partir desse trabalho, o modelo de ensino da Suécia passou a fortalecer práticas de alfabetização em papel sem retirar o espaço da inovação tecnológica.
O que mudou nas escolas suecas
Desde 2025, as pré-escolas deixaram de ser obrigadas a utilizar ferramentas digitais, e crianças menores de dois anos deixaram de receber tablets como parte da rotina no modelo educacional sueco. Para 2026, o governo também prevê a entrada em vigor da proibição de telefones celulares nas escolas, inclusive durante atividades classificadas como educacionais.
Ao mesmo tempo, a estratégia ampliou os investimentos em livros didáticos, materiais pedagógicos e apoio às bibliotecas escolares. O novo currículo nacional, previsto para 2028, deverá consolidar leitura, escrita e cálculo como competências desenvolvidas prioritariamente com recursos analógicos nos primeiros anos da educação básica.
