Aos 16 anos, Raul Victor Magalhães Souza transformou uma pesquisa feita em uma escola pública de Iracema, no interior do Ceará, em um sistema de baixo custo para prever chuvas no semiárido. A ferramenta combina inteligência artificial, dados meteorológicos e sinais observados pelos tradicionais profetas da chuva.
O sistema prevê chuvas a partir de informações coletadas ao longo de décadas e de observações da natureza feitas por moradores do Vale do Jaguaribe. Segundo o Governo do Ceará, a pesquisa trabalhou com 44 anos de registros meteorológicos e foi pensada para ter aplicação prática em comunidades rurais.
A ideia é oferecer aos agricultores uma fonte adicional de informação para decisões sobre plantio e uso da água. Esse benefício, porém, ainda é potencial: a ferramenta ainda não foi disponibilizada ao público, segundo reportagem publicada em maio.
Os testes já deram uma dimensão do que o modelo consegue fazer. Em uma validação preliminar de janeiro a março de 2025, ele estimou 422,1 milímetros de chuva, enquanto o volume oficial observado foi de 431,5 milímetros — diferença de 2,2%.
Sistema prevê chuvas combinando dados e conhecimento do sertão
Raul desenvolveu o projeto na Escola de Ensino Médio em Tempo Integral Deputado Joaquim de Figueiredo Correia. Em vez de trabalhar apenas com números de estações meteorológicas, ele também entrevistou profetas da chuva de municípios do Vale do Jaguaribe.
Esses moradores usam sinais como floração de plantas, comportamento de animais e fenômenos atmosféricos para antecipar mudanças no tempo. Na pesquisa, Raul organizou essas observações em parâmetros e as combinou com os dados meteorológicos no modelo de aprendizado de máquina.
A Fundação Bunge informa que o sistema alcançou 94,5% de precisão em previsões climáticas no Ceará. Já a Mostratec registra, além do resultado da validação preliminar, que a plataforma permite visualização dos resultados e apresenta baixo custo.
Pesquisa saiu da escola pública e ganhou reconhecimento nacional
O projeto já levou Raul a competições científicas dentro e fora do Brasil. Em 2025, ele venceu a categoria Estudante do Ensino Médio do 31º Prêmio Jovem Cientista, promovido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Em junho de 2026, a pesquisa também venceu a etapa brasileira do Stockholm Junior Water Prize, competição voltada a soluções relacionadas à água. Com o resultado, Raul conquistou vaga na final internacional do prêmio, em Estocolmo, na Suécia.
O reconhecimento não muda o estágio da ferramenta. Para quem vive da agricultura, o próximo passo relevante será a disponibilização pública do sistema que prevê chuvas. Até lá, a pesquisa mostra como uma solução desenvolvida em escola pública pode aproximar inteligência artificial de um problema concreto do semiárido sem abandonar o conhecimento acumulado por quem observa o clima da região há gerações.