A pedido de cacique, cientistas criam dicionário multimídia de línguas indígenas para novas gerações

Pedido de cacique deu origem a um dicionário de línguas indígenas com recursos multimídia que hoje ajuda comunidades a transmitir idiomas aos mais jovens.
Levantamento do Boa Notícia Brasil mostra que cinco línguas contempladas pelos dicionários têm menos de 60 usuários registrados no Censo 2022.
Dicionário de línguas indígenas reúne palavras, áudios, imagens e vídeos para apoiar o aprendizado dentro das próprias comunidades. (Foto: OTS Amazônia)

Um pedido feito por um cacique de Rondônia ajudou a transformar décadas de pesquisa em uma ferramenta para que crianças e jovens possam aprender a língua de seus próprios povos. Pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) desenvolveram dicionários multimídia de línguas indígenas que reúnem palavras, traduções, imagens, áudios e vídeos.

Apoio

A iniciativa começou em 2019, depois que José Augusto Kanoé, cacique da comunidade Kanoé, da Terra Indígena Rio Guaporé, apresentou aos pesquisadores a necessidade de fortalecer o uso da língua entre os mais novos. O pai dele havia sido um dos últimos falantes do Kanoé.

O primeiro resultado foi o dicionário Kanoé-Português. Com o avanço do trabalho, a metodologia passou a contemplar outras línguas e conhecimentos indígenas. Atualmente, a plataforma reúne sete dicionários: seis dedicados às línguas Kanoé, Oro Win, Puruborá, Sakurabiat, Salamãi e Wanyam, além de um sobre os lugares sagrados do povo Medzeniakonai.

A ferramenta pode ser acessada por computador, celular ou tablet e também funciona sem conexão com a internet. Isso permite que comunidades localizadas em regiões com acesso limitado à rede usem o material para consultar palavras e, principalmente, ouvir a pronúncia registrada por falantes das próprias línguas.

Dicionário de línguas indígenas já é usado em sala de aula

O trabalho já ultrapassou a etapa de documentação e passou a fazer parte do ensino em comunidades indígenas. Na escola Iwara Puruborá, na Aldeia Aperoi, em Rondônia, o dicionário é usado no aprendizado de cerca de 20 estudantes, entre crianças, adolescentes e adultos.

Segundo o professor Mário Puruborá, o material se tornou uma das principais referências didáticas da escola. Os professores também recorrem à ferramenta em aulas remotas destinadas a indígenas que vivem fora do território.

Na comunidade Kanoé, o aplicativo também serve como apoio quando os mais jovens têm dúvidas sobre determinadas palavras. José Augusto relatou ao Museu Goeldi que as crianças de sua família já mantêm o dicionário instalado e o consultam durante o aprendizado.

Brasil tem 295 línguas indígenas registradas

A importância desse tipo de iniciativa ganha dimensão diante da diversidade linguística brasileira. O Censo 2022 identificou 295 línguas indígenas faladas ou utilizadas em domicílios por pessoas indígenas com dois anos ou mais. O levantamento também registrou 391 etnias, povos ou grupos indígenas no país.

Parte dessas línguas, porém, é mantida por grupos muito pequenos de falantes. Nesses casos, preservar somente a forma escrita não registra todos os elementos necessários para que uma nova geração consiga aprender a língua.

Ao reunir voz, pronúncia, imagens e exemplos de uso, os dicionários oferecem uma referência que as comunidades podem consultar mesmo quando poucos falantes conseguem transmitir esse conhecimento diretamente.

Cinco línguas dos dicionários têm menos de 60 usuários registrados

Um levantamento feito pelo Boa Notícia Brasil a partir dos dados do Censo 2022 ajuda a dimensionar por que registrar essas línguas se tornou tão importante. Das seis línguas que já possuem dicionários próprios na plataforma do Museu Goeldi, cinco aparecem de forma individualizada na base do IBGE — e todas têm menos de 60 pessoas registradas como usuárias.

A situação mais extrema é a do Salamãy, com apenas uma pessoa de dois anos ou mais registrada pelo Censo como falante ou usuária da língua no domicílio. Depois aparecem Puruborá, com 12 pessoas; Kanoé, com 17; Oro Win, com 20; e Sakurabiat, com 53.

O levantamento cruzou a relação dos dicionários disponibilizados pelo Museu Goeldi com a tabela do Censo que identifica as línguas indígenas faladas ou utilizadas nos domicílios. O Wanyam, que também possui um dicionário na plataforma, não aparece individualizado nessa relação do IBGE e, por isso, não recebeu um número na comparação.

Os dados não significam necessariamente que esse seja o número total de pessoas que conhecem cada língua. O indicador do Censo considera indígenas de dois anos ou mais que declararam falar ou utilizar a língua no domicílio. Ainda assim, os números mostram que grupos muito pequenos usam algumas dessas línguas e ajudam a explicar o esforço para registrar pronúncias, palavras e formas de uso antes que as novas gerações deixem de receber esse conhecimento.

Projeto recebeu reconhecimento nacional em 2026

O trabalho desenvolvido pelo Museu Goeldi e pelas comunidades indígenas recebeu reconhecimento nacional em maio de 2026, quando ficou entre os sete vencedores do Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social.

A premiação reconheceu uma iniciativa que já vinha sendo construída havia anos e que coloca a tecnologia a serviço de uma demanda apresentada pelos próprios povos indígenas. Mais do que registrar vocabulários para pesquisa, a ferramenta leva esse material às comunidades em um formato que crianças, jovens e adultos podem usar no cotidiano.

Para crianças e jovens, o resultado aparece de forma concreta: a ferramenta reúne palavras, sons e conhecimentos antes transmitidos principalmente por poucos falantes e permite que as novas gerações consultem e ouçam esse conteúdo durante o aprendizado.

Foto de Monique de Carvalho

Monique de Carvalho

Jornalista formada em Comunicação Social pela Fanor, com mais de 15 anos de experiência em marketing de conteúdo, produção digital, storytelling e comunicação de impacto. Já contribuiu para os portais Razões para Acreditar e Só Notícia Boa.

Mais lidas

Últimas notícias

Entrar no canal Canal do Boa Notícia Brasil no WhatsApp