Cientistas da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveram uma técnica para ajudar na cicatrização de feridas difíceis de fechar e conseguiram um resultado importante nos primeiros testes. Em laboratório, a combinação fez uma lesão simulada ficar praticamente fechada após 72 horas.
A pesquisa mira as chamadas feridas crônicas, que podem permanecer abertas por meses ou até anos. É o caso de algumas úlceras relacionadas ao diabetes e de lesões que surgem em pessoas que passam longos períodos acamadas. Elas também aumentam o risco de infecção e outras complicações.
O diferencial da técnica está em enfrentar mais de um problema que dificulta a recuperação da pele. Em vez de atuar apenas sobre a inflamação, os pesquisadores reuniram componentes capazes de proteger as células e reduzir a ação excessiva de uma enzima que prejudica a reconstrução do tecido.
O resultado de 72 horas ainda não significa que uma pessoa com uma ferida crônica terá a lesão fechada em três dias. A pesquisa está em fase inicial e precisa passar por outras etapas antes que a tecnologia possa ser testada em pacientes.
Técnica atua em diferentes causas que dificultam a cicatrização
Quando uma ferida se torna crônica, vários mecanismos do organismo podem deixar de funcionar como deveriam. A inflamação persiste, há danos às células e algumas substâncias passam a destruir componentes que a pele precisa para se reconstruir.
Para agir sobre esses problemas ao mesmo tempo, a equipe da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da USP combinou duas estratégias. Uma delas usa o resveratrol, composto com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. A outra reduz a produção da MMP-9, uma enzima que, em excesso, degrada colágeno e outras estruturas importantes para a recuperação da pele.
Os pesquisadores colocaram os dois componentes em partículas muito pequenas e as incorporaram a um gel aplicado sobre a área estudada. Nos testes, a formulação reduziu sinais de inflamação e de dano celular e recuperou a movimentação dos fibroblastos, células que participam da formação de colágeno e do fechamento das feridas.
Pesquisa ainda precisa avançar antes de chegar aos pacientes
Até agora, a equipe realizou experimentos com culturas de células e pele suína. No modelo criado para observar a cicatrização em laboratório, a combinação completa levou ao fechamento quase total da lesão simulada em 72 horas.
O estudo científico também confirmou que a formulação conseguiu reduzir a atividade da MMP-9 e marcadores ligados à inflamação, além de melhorar a movimentação das células responsáveis pela reparação do tecido. Os resultados foram publicados na revista científica Colloids and Surfaces B: Biointerfaces.
Agora, os pesquisadores pretendem testar a técnica em modelos tridimensionais de pele e, posteriormente, em animais. Só depois de confirmar a segurança e a eficácia nessas etapas será possível avançar para estudos clínicos com pessoas. É esse caminho que determinará se o resultado obtido em laboratório poderá, no futuro, ajudar pacientes que convivem com feridas difíceis de fechar.