Um curativo de pele de tilápia desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) está avançando para uma nova etapa: ganhar produção industrial no próprio estado. A versão liofilizada do material pode ser armazenada em temperatura ambiente, sem a refrigeração exigida pela primeira tecnologia criada pelos pesquisadores.
A fábrica será instalada em Jaguaribara, no Vale do Jaguaribe, pela Biotec Medical Xenograft Engineering. O município já destinou uma área para a implantação do empreendimento, que deverá aproximar a produção industrial tanto da pesquisa que originou a tecnologia quanto da matéria-prima usada no produto.
Jaguaribara está em uma importante região produtora de tilápias. Com a futura unidade, peles do peixe que hoje têm destinação de baixo valor poderão passar a abastecer a fabricação do biomaterial.
O produto, no entanto, ainda não está disponível comercialmente. Segundo informações divulgadas pela UFC, sua chegada ao mercado depende das etapas regulatórias necessárias, incluindo o registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Até agora, o material tem sido utilizado em protocolos e projetos de pesquisa.
Curativo de pele de tilápia liofilizado fica fora da geladeira
A tecnologia liofilizada surgiu depois da primeira versão do curativo, conservada em glicerol. No processo de liofilização, os pesquisadores desidratam a pele a frio e sob baixa pressão, preservam sua estrutura e, depois, embalam e esterilizam o material.
A principal diferença aparece na logística. Enquanto a pele conservada em glicerol precisa permanecer refrigerada, o material liofilizado é estável em temperatura ambiente. Isso elimina a necessidade de manter uma cadeia refrigerada durante o armazenamento e o transporte.
Pesquisadores da UFC já relataram o impacto dessa mudança. Em remessas para esterilização em São Paulo, o transporte de uma pele liofilizada chegou a custar cerca de R$ 40 a R$ 50, enquanto o envio refrigerado da versão em glicerol podia chegar a aproximadamente R$ 1 mil.
Pesquisa começou há mais de uma década no Ceará
Os estudos com pele de tilápia começaram em 2015, no Ceará, e deram origem a diferentes aplicações experimentais.Os pesquisadores desenvolveram posteriormente a versão liofilizada e realizaram testes em laboratório, estudos com animais e estudos clínicos com pacientes queimados.
Segundo a UFC, os pesquisadores vêm investigando o uso do biomaterial no tratamento de queimaduras e feridas, além de outras aplicações na medicina regenerativa. Entre os efeitos estudados estão a possibilidade de reduzir o número de trocas de curativos e a dor durante o tratamento.
Os resultados disponíveis mostram avanços promissores, mas os pesquisadores continuam estudando o produto e ainda precisam cumprir as etapas regulatórias necessárias antes de levá-lo ao mercado.
Fábrica pode aproximar pesquisa, produção e matéria-prima
A implantação da unidade em Jaguaribara também cria uma ligação direta entre três pontos da cadeia: a pesquisa desenvolvida no Ceará, a futura produção industrial e a disponibilidade de pele de tilápia na região.
A UFC já licenciou à Biotec o direito de desenvolver, produzir e explorar comercialmente a tecnologia da pele de tilápia liofilizada. A instalação da fábrica representa uma etapa necessária para que o biomaterial possa sair de uma produção voltada principalmente à pesquisa e ganhar escala industrial.
Os valores de investimento, a capacidade mensal prevista e o cronograma definitivo da obra ainda devem ser confirmados em documentação primária antes da publicação. O avanço comercial do curativo de pele de tilápia continuará condicionado tanto à implantação da unidade quanto às autorizações regulatórias exigidas para o produto.