O Nordeste começa a dar os primeiros passos na produção de pele em 3D, tecnologia que permite criar modelos de tecidos vivos em laboratório. O Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste (Cetene), no Recife, prepara uma nova frente de pesquisa para testar biocompostos e estudar os efeitos de contaminantes sem expor animais vivos a essas substâncias.
A tecnologia organiza células vivas e biomateriais em camadas para formar modelos capazes de reproduzir características da pele humana e animal. Esses tecidos poderão ser utilizados para avaliar como diferentes substâncias interagem com as células em condições controladas.
A proposta aproxima uma das aplicações mais promissoras da bioimpressão da rotina dos laboratórios. Em vez de começar pela produção de órgãos completos, a pesquisa avança por um caminho já explorado internacionalmente e que pode contribuir para reduzir, de forma gradual, a necessidade de animais em determinadas etapas dos estudos.
Por que a pele foi escolhida para inaugurar a bioimpressão
Antes do início dos experimentos, o equipamento ainda passará pelas etapas de instalação e preparação para o uso de células e outros materiais biológicos. As pesquisas também dependerão do cumprimento das exigências sanitárias previstas para esse tipo de atividade.
A bioimpressora funciona de forma semelhante às impressoras tridimensionais convencionais, mas substitui a tinta por uma combinação de células e biomateriais conhecida como biotinta. Esse material permite construir estruturas que reproduzem características do tecido vivo.
O Cetene concentrará os primeiros projetos em modelos de pele humana e animal porque esse tecido reúne algumas das aplicações mais consolidadas da bioimpressão. Além disso, oferece uma plataforma segura para avaliar a interação de diferentes substâncias antes de estudos mais complexos.
Pele em 3D poderá ampliar alternativas aos testes laboratoriais
Antes de chegar aos pacientes ou ao mercado, medicamentos, bioinsumos e diversos outros produtos passam por uma série de avaliações de segurança. A pele em 3D poderá oferecer uma nova ferramenta para parte dessas análises.
Os modelos produzidos em laboratório permitem reproduzir características da pele de forma padronizada, o que facilita a comparação entre diferentes experimentos. Como o mesmo tecido pode ser utilizado em análises repetidas, os pesquisadores conseguem controlar melhor as condições de cada teste e comparar os resultados com maior precisão.
A substituição, porém, não será imediata. Pesquisadores precisam desenvolver, validar e aprovar cada método antes de incorporá-lo aos protocolos científicos utilizados por centros de pesquisa e órgãos reguladores.
Da pele de tilápia à pele em 3D
A chegada da bioimpressão amplia uma trajetória de pesquisas que já colocou o Nordeste em destaque na área de biomateriais. Um dos exemplos mais conhecidos surgiu na Universidade Federal do Ceará, com os estudos sobre o uso da pele de tilápia como curativo biológico para queimaduras.
Embora trabalhem com tecidos, as duas tecnologias têm objetivos diferentes. A pele de tilápia é preparada para auxiliar no tratamento de pacientes, enquanto a bioimpressão cria modelos destinados principalmente à pesquisa científica.
Com a nova estrutura, o Cetene amplia a capacidade regional de desenvolver soluções em biotecnologia e medicina regenerativa. Os pesquisadores ainda precisam instalar o equipamento, obter as autorizações necessárias e validar os métodos antes de ampliar o uso da pele em 3D.