Com golpes de voz clonada por IA, especialistas indicam palavra-código entre familiares

Com a IA capaz de reproduzir vozes conhecidas, especialistas orientam famílias a combinar uma palavra secreta para confirmar a identidade em situações suspeitas.
Pessoa recebe ligação suspeita no celular em imagem sobre golpe com voz clonada por IA.
Palavra-código entre familiares pode ajudar a identificar tentativas de golpe com voz clonada por inteligência artificial. (Foto: Imagem gerada por IA)

Uma ligação chega de repente. Do outro lado, a voz parece ser a de um filho, pai ou irmão pedindo dinheiro para resolver uma emergência. Com os golpes de voz clonada, porém, reconhecer quem está falando já não é suficiente para confirmar que o pedido é verdadeiro.

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Casos recentes mostram como esses tipos de golpes aumentam dentro e fora do Brasil. Para especialistas, todo tipo de prevenção é importante e, nesse momento, o mais indicado é combinar uma palavra-código entre familiares e amigos próximos.

Um exemplo aconteceu em maio, aqui no Brasil, quando um motorista foi salvo de sequestro porque ligou para a esposa e falou o código que eles tinham combinado entre si. A expressão funcionou como uma segunda forma de identificação e salvou a vida do homem.

A orientação ganha importância porque ferramentas de inteligência artificial conseguem reproduzir características de vozes reais. Um estudo do Centro Paula Souza encontrou pelo menos 93% de similaridade entre vozes clonadas e as gravações originais analisadas pelos pesquisadores.

A palavra secreta não substitui outros cuidados. Diante de um pedido inesperado de dinheiro, dados bancários ou ajuda urgente, a recomendação é interromper o contato e procurar o familiar por um número ou canal que já seja conhecido.

Como usar uma palavra-código contra golpes de voz clonada

Especialistas ouvidos pelo O Globo recomendam que famílias definam previamente uma palavra, expressão ou referência que não seja fácil de descobrir nas redes sociais. A informação pode ser solicitada quando surgir uma situação incomum, antes de atender ao pedido feito durante a ligação.

O código precisa permanecer restrito às pessoas envolvidas. Datas de aniversário, nomes de animais de estimação ou outras informações publicadas na internet não são boas escolhas, porque podem ser encontradas por terceiros.

Também é importante não depender exclusivamente da palavra combinada. Se algo continuar estranho, a pessoa pode desligar e ligar diretamente para o familiar, além de confirmar a situação com alguém próximo antes de fazer qualquer transferência.

Três verificações que funcionam mesmo quando a voz parece real

A qualidade das vozes produzidas por inteligência artificial torna mais arriscado confiar apenas no que os ouvidos reconhecem. Por isso, a proteção pode combinar diferentes formas de confirmar quem realmente está do outro lado da ligação.

A primeira é a palavra-código, definida previamente pela família e mantida fora das redes sociais. A segunda é encerrar a conversa e ligar para o número que já está salvo no celular, em vez de continuar o contato pelo canal usado no pedido de dinheiro.

A terceira é procurar outra pessoa próxima antes de fazer qualquer transferência. Se alguém afirma que um filho, pai ou irmão sofreu um acidente, por exemplo, outro familiar pode ajudar a confirmar onde essa pessoa está.

As três etapas criam verificações independentes da semelhança da voz. Na prática, isso reduz a dependência de um único sinal de identidade e também ajuda a interromper a pressão para tomar uma decisão imediata.

O que significa a similaridade de pelo menos 93% encontrada no estudo

O índice identificado pelo Centro Paula Souza não significa que 93% das pessoas seriam enganadas por uma voz clonada. O percentual se refere à similaridade encontrada pelos pesquisadores ao comparar características das gravações artificiais com as vozes originais analisadas no estudo.

Na pesquisa, os autores utilizaram ferramentas como Praat e Resemblyzer para examinar propriedades acústicas e comparar as gravações. Os testes encontraram similaridade de pelo menos 93%, embora também tenham identificado diferenças que podem ajudar tecnicamente a distinguir uma voz verdadeira de uma reprodução criada por inteligência artificial.

Para quem recebe uma ligação inesperada, porém, esse tipo de análise técnica não está disponível naquele momento. Por isso, confirmar a identidade por informações que a inteligência artificial não consegue obter apenas reproduzindo uma voz funciona como uma barreira adicional contra a fraude.

O resultado também ajuda a explicar por que apenas reconhecer o timbre de uma pessoa conhecida deixou de ser uma confirmação suficiente. Quanto mais convincente for a reprodução da voz, maior se torna a importância de buscar uma segunda informação antes de agir.

“Bob Esponja” ajudou esposa a perceber que marido estava em perigo

Uma história ocorrida em Sumaré, no interior de São Paulo, mostra como uma referência compreendida entre pessoas próximas pode sinalizar que alguma coisa está errada.

Na madrugada de 27 de maio, um motorista de aplicativo de 48 anos foi sequestrado depois de aceitar uma corrida na região de Campinas. Mantido sob ameaça, ele recebeu uma ligação da esposa e não podia dizer diretamente que estava em perigo.

Antes de desligar, falou que os dois poderiam assistir a “Bob Esponja” quando ele chegasse em casa. A frase chamou a atenção da mulher porque ela não gostava do desenho. A esposa desconfiou, acionou a polícia e o motorista acabou localizado e resgatado.

O episódio não envolveu inteligência artificial nem golpes de voz clonada. Naquele caso, a referência surgiu durante uma situação de emergência e não era um código previamente combinado. Ainda assim, a história mostra como algo que foge da rotina de uma família pode servir de sinal de alerta.

Para os golpes feitos com IA, a lógica é preventiva: combinar a palavra antes que uma emergência apareça. Se uma ligação suspeita chegar, o código oferece mais uma informação para testar a identidade de quem fala.

E a palavra secreta não precisa encerrar a verificação. Desligar, retornar pelo número conhecido e procurar outra pessoa próxima formam camadas adicionais de confirmação antes de qualquer transferência de dinheiro.

Foto de Monique de Carvalho

Monique de Carvalho

Jornalista formada em Comunicação Social pela Fanor, com mais de 15 anos de experiência em marketing de conteúdo, produção digital, storytelling e comunicação de impacto. Já contribuiu para os portais Razões para Acreditar e Só Notícia Boa.

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