Planta típica do Nordeste, murici é estudado como tratamento contra dores fortes pela Unifor e UECE

Cientistas cearenses desenvolveram um extrato das folhas do murici que apresentou ação contra dor e inflamação nos primeiros testes. A pesquisa ainda está na fase pré-clínica e não envolve seres humanos.
Frutos de murici amarelos e alaranjados entre folhas verdes.
Murici é estudado por pesquisadores da Unifor e da UECE por seu potencial contra dor e inflamação. (Foto: imagem gerada por IA)

Uma planta bastante conhecida no Nordeste virou objeto de uma pesquisa que pode contribuir para o desenvolvimento de futuros tratamentos contra dor e inflamação. Cientistas da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e da Universidade de Fortaleza (Unifor) desenvolveram um extrato feito com folhas de murici que apresentou ação anti-inflamatória, analgésica e antioxidante nos primeiros testes.

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Os experimentos ainda não foram feitos em seres humanos. Até agora, os pesquisadores testaram a substância em peixes conhecidos como zebrafish, usados em pesquisas antes dos estudos clínicos. Os resultados indicaram baixa toxicidade e efeitos relacionados à redução da dor e da inflamação.

Um dos resultados que chamou atenção foi a atuação de um dos compostos encontrados na planta em testes que utilizaram a morfina como referência. Isso não significa, porém, que o murici possa substituir o medicamento. O resultado ajuda os cientistas a entender como as substâncias presentes na planta agem no organismo e quais delas merecem ser investigadas em novas etapas.

A pesquisa começou em fevereiro de 2025 e continua em andamento. O grupo ainda precisa definir doses, estudar com mais detalhes a composição do extrato e realizar novas etapas de segurança antes que se possa falar em testes com pessoas. A tecnologia já teve um pedido de patente apresentado ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).

Folha do murici chama atenção dos pesquisadores

O murici já faz parte da vida de muitas comunidades nordestinas, seja na alimentação, seja em práticas tradicionais. Na pesquisa, porém, o interesse dos cientistas foi além do fruto: eles decidiram estudar também as folhas da planta.

Na UECE, pesquisadores do Laboratório de Química de Produtos Naturais analisam quais substâncias estão presentes nessas folhas. Já na Unifor, cientistas estudam o que acontece quando o extrato entra em contato com um organismo vivo e verificam se há sinais de toxicidade.

Foi assim que a equipe encontrou resultados relacionados à redução da dor e da inflamação, inclusive em processos que envolvem o sistema gastrointestinal.

Segundo Lucas Frota, professor e pós-doutorando do Laboratório de Química de Produtos Naturais da UECE, um dos pontos de interesse está justamente na maneira como o extrato parece agir.

Em vez de atuar apenas protegendo o estômago, como ocorre com alguns medicamentos, a substância estudada também estaria relacionada a mecanismos envolvidos em processos que podem provocar dor e inflamação.

“Procuramos desenvolver um material que atua por uma via ainda pouco estudada”, explica o professor.

Pequeno peixe ajuda a testar se extrato é seguro

Para descobrir se o extrato produzia efeitos no organismo e se apresentava riscos, os pesquisadores recorreram a um pequeno peixe de água doce chamado zebrafish, ou peixe-zebra.

Ele mede cerca de cinco centímetros quando adulto e compartilha características genéticas e biológicas com os seres humanos. Por isso, é utilizado em pesquisas para observar como determinadas substâncias afetam órgãos e processos do corpo antes de estudos mais avançados.

No caso do murici, os cientistas observaram os animais adultos para verificar principalmente dois pontos: se o extrato ajudava a reduzir a inflamação e se provocava algum sinal de toxicidade. Até o momento, segundo os pesquisadores, os resultados apontaram baixa toxicidade.

“Até então, nos estudos pré-clínicos que realizamos, não conhecemos efeitos adversos. É um material que não causa dependência”, afirma Lucas Frota.

A pesquisadora Adriana Rolim, coordenadora de Pesquisa da Unifor, explica que trabalhar com os peixes adultos permite observar respostas mais maduras do organismo. Na prática, esse tipo de estudo funciona como uma das primeiras etapas para saber se vale a pena continuar investigando uma substância como possível base para um futuro medicamento.

Pesquisa começou a partir do conhecimento do povo Tremembé

A história da pesquisa não começou apenas dentro dos laboratórios. O interesse pelo murici surgiu a partir do contato dos pesquisadores com o povo Tremembé da Barra do Mundaú, em Itapipoca, no Ceará. Para a comunidade, a planta tem importância cultural e faz parte até mesmo da tradicional Festa do Murici e do Batiputá.

A partir desse conhecimento compartilhado pela comunidade, os cientistas decidiram investigar mais profundamente as características da planta. O olhar se voltou não apenas ao fruto, já conhecido na alimentação, mas também às folhas.

Esse encontro entre saber tradicional e pesquisa científica permitiu que uma planta conhecida há gerações passasse a ser estudada com métodos de laboratório para identificar quais substâncias possui e como elas agem.

O trabalho também reforça o valor da biodiversidade nordestina para a ciência. Plantas presentes no cotidiano de comunidades locais podem conter compostos ainda pouco compreendidos e que precisam passar por diferentes etapas de pesquisa antes de qualquer aplicação em pessoas.

No caso do murici, os primeiros resultados foram suficientes para que os pesquisadores continuassem a investigação e buscassem a proteção da tecnologia por meio de patente.

Foto de Monique de Carvalho

Monique de Carvalho

Jornalista formada em Comunicação Social pela Fanor, com mais de 15 anos de experiência em marketing de conteúdo, produção digital, storytelling e comunicação de impacto. Já contribuiu para os portais Razões para Acreditar e Só Notícia Boa.

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