Médicos realizam cirurgia inédita no útero e corrigem rara malformação em bebê

Um bebê com gastrosquise passou por uma cirurgia inédita ainda no útero da mãe. O procedimento experimental reposicionou os órgãos antes do nascimento e pode reduzir complicações graves em casos semelhantes.
Equipe médica realizou cirurgia no útero durante a gestação para corrigir uma rara forma de gastrosquise antes do nascimento.
Bebê Theo participou de estudo clínico que avalia uma nova técnica de cirurgia no útero para tratar malformações congênitas ainda na gestação. (Foto: Maisie Savage)

Uma equipe médica dos Estados Unidos realizou uma cirurgia inédita no útero para tratar um bebê com gastrosquise complexa, uma rara malformação congênita em que parte do intestino se desenvolve fora do abdômen. O procedimento foi feito quando o feto ainda estava com 26 semanas de gestação e permitiu recolocar os órgãos antes do nascimento, algo que pode reduzir complicações graves em casos semelhantes.

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O bebê, Theo, hoje com cinco meses, participou de um estudo clínico conduzido pelo Texas Children’s Hospital, em Houston. Ele foi o terceiro paciente no mundo a passar por esse tipo de intervenção, que ainda está em fase experimental.

Como a cirurgia no útero foi realizada

Após o diagnóstico da forma mais grave da gastrosquise, os médicos britânicos encaminharam a gestante, Maisie Savage, para os Estados Unidos. Antes da operação, especialistas na Bélgica aplicaram uma injeção de Botox na parede abdominal do bebê para relaxar a musculatura e facilitar o procedimento.

Já no Texas, a equipe médica expôs parcialmente o útero da mãe e utilizou uma técnica minimamente invasiva para reposicionar cuidadosamente o intestino e os demais órgãos no abdômen do bebê. Em seguida, os cirurgiões fecharam a abertura com suturas.

Depois da cirurgia, a gestação seguiu por mais 14 semanas. Theo nasceu de parto normal, em fevereiro, sem que fosse necessário antecipar o nascimento por causa da operação.

Como a cirurgia fetal vem ampliando os limites da medicina

Embora a correção da gastrosquise ainda esteja em fase experimental, a cirurgia fetal já faz parte da rotina em alguns centros especializados para tratar determinadas doenças antes do nascimento. Um dos exemplos mais conhecidos é a correção da mielomeningocele, forma grave de espinha bífida, cuja intervenção durante a gestação pode reduzir complicações neurológicas e melhorar o desenvolvimento da criança.

Além da gastrosquise complexa, pesquisadores também estudam técnicas para tratar outras doenças congênitas ainda no útero, como algumas alterações cardíacas, problemas pulmonares e obstruções do trato urinário fetal. Em todos esses casos, o objetivo é impedir que a doença provoque danos irreversíveis antes do parto.

Equipes de hospitais altamente especializados realizam esses procedimentos seguindo protocolos rigorosos de pesquisa e segurança. Cada caso passa por uma avaliação detalhada para verificar se os benefícios superam os riscos tanto para o bebê quanto para a gestante.

O estudo conduzido pelo Texas Children’s Hospital integra esse esforço internacional para ampliar as possibilidades da medicina fetal. Se os resultados continuarem positivos, a técnica poderá se tornar uma alternativa para pacientes que hoje dependem exclusivamente do tratamento após o nascimento.

Por que o procedimento pode mudar o tratamento da gastrosquise

A gastrosquise afeta cerca de um em cada 3 mil bebês no Reino Unido. Atualmente, o tratamento costuma ocorrer apenas depois do nascimento. Nos casos mais graves, os recém-nascidos podem permanecer meses na UTI neonatal, passar por diversas cirurgias e depender de alimentação intravenosa por um longo período.

Ao corrigir a malformação ainda durante a gestação, os pesquisadores esperam reduzir os danos provocados pela exposição prolongada do intestino ao líquido amniótico. Além disso, pretendem diminuir a necessidade de procedimentos após o parto.

Apesar do resultado positivo, os especialistas ressaltam que a técnica ainda integra um estudo clínico. Será necessário acompanhar um número maior de pacientes para confirmar a segurança e a eficácia do procedimento.

Próximo passo é ampliar o tratamento

Se os resultados da cirurgia no útero continuarem positivos, a equipe do Great Ormond Street Hospital, em Londres, pretende oferecer a cirurgia também no Reino Unido. Os pesquisadores acreditam que a experiência poderá abrir caminho para novas intervenções fetais em outras doenças congênitas, sempre após a validação científica.

Para a família de Theo, porém, o avanço já representa uma transformação. O bebê permaneceu no útero até o fim da gestação e hoje se desenvolve normalmente. Ao mesmo tempo, sua participação no estudo ajuda a medicina a compreender novas possibilidades de tratamento para casos que, até pouco tempo, só podiam ser enfrentados depois do nascimento.

Foto de Monique de Carvalho

Monique de Carvalho

Jornalista formada em Comunicação Social pela Fanor, com mais de 15 anos de experiência em marketing de conteúdo, produção digital, storytelling e comunicação de impacto. Já contribuiu para os portais Razões para Acreditar e Só Notícia Boa.

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