Poucos brasileiros conhecem toda a dimensão das pesquisas desenvolvidas pelos cientistas do Butantan. Além da produção de vacinas, a equipe da instituição investiga desde o HIV até terapias com células CAR-T para alguns cânceres do sangue, além de estudos em genética, imunologia e antivenenos. E foi justamente esse trabalho que colocou sete pesquisadores brasileiros entre os mais influentes do mundo em suas especialidades.
O reconhecimento veio na edição de 2026 do Best Scientists by Discipline, elaborado pela plataforma Research.com. O ranking considera indicadores como índice H, impacto das publicações e número de citações para identificar pesquisadores com maior influência em cada área do conhecimento.
A presença desses especialistas na lista internacional mostra que a atuação do Instituto Butantan vai muito além dos imunizantes. As linhas de investigação conduzidas pela instituição abrangem doenças infecciosas, terapias celulares, genética, imunologia e toxinologia, áreas que contribuem para o desenvolvimento de novos tratamentos e para o avanço do conhecimento científico.
Do HIV aos antivenenos, pesquisas ganham reconhecimento internacional
Parte desse reconhecimento vem dos estudos sobre HIV, vacinas e doenças infecciosas liderados por Esper Kallás, além das pesquisas de Rui Curi sobre metabolismo celular, inflamação e imunologia. Essas áreas ajudam a compreender o funcionamento do organismo e fornecem bases para novas estratégias de prevenção e tratamento de diferentes doenças.
O ranking também destaca pesquisadores que atuam em frentes bastante distintas da ciência. Ana Maria Moura da Silva desenvolve estudos sobre toxinas presentes em venenos de serpentes e o aperfeiçoamento de antivenenos. Já Sergio Verjovski Almeida dedica seu trabalho à regulação genética e à esquistossomose, enquanto Vanderson Rocha pesquisa terapias com células CAR-T, utilizadas no tratamento de alguns cânceres do sangue.
A lista inclui ainda dois pesquisadores aposentados que continuam sendo referência em suas áreas. Darci Moraes Barros Battesti é reconhecido pelos estudos sobre carrapatos e ácaros parasitas de animais silvestres. Antonio Carlos Martins Camargo, por sua vez, contribuiu para ampliar o conhecimento sobre compostos presentes no veneno da jararaca, pesquisas que ajudaram a aprofundar os estudos sobre os mecanismos de controle da pressão arterial.
Cientistas do Butantan ocupam posições de destaque no Brasil
Rui Curi alcançou a terceira posição entre os cientistas brasileiros de Biologia e Bioquímica. Suas pesquisas ajudam a entender como o metabolismo das células interfere na inflamação e no funcionamento do sistema imunológico. Esse conhecimento tem aplicação no estudo de diferentes doenças e das respostas do organismo a infecções.
Na área de Biologia Molecular, Ana Maria Moura-da-Silva ficou em quinto lugar, enquanto Sergio Verjovski Almeida ocupou a oitava posição. Ana Maria estuda as toxinas presentes em venenos de serpentes e a capacidade dos soros antivenenos de neutralizar seus efeitos. Já Sergio investiga o funcionamento dos genes e a esquistossomose, doença parasitária que ainda representa um problema de saúde pública no Brasil.
Esper Kallás aparece entre os principais pesquisadores brasileiros de Imunologia. O médico e cientista construiu parte importante da carreira investigando HIV, vacinas e doenças infecciosas. Seus estudos buscam compreender a reação do sistema de defesa do corpo e contribuir para a prevenção e o enfrentamento de enfermidades que atingem milhões de pessoas.
Pesquisas reconhecidas chegam ao tratamento de doenças
Vanderson Rocha representa o Butantan na área de Medicina. O pesquisador atua em oncologia e hematologia e participa do desenvolvimento de tratamentos com células CAR-T contra cânceres do sangue. A técnica modifica células de defesa do próprio paciente em laboratório para que elas consigam reconhecer e combater as células cancerígenas.
A lista também reconhece Darci Moraes Barros-Battesti, referência no estudo de carrapatos e outros ácaros que parasitam animais silvestres. Seu trabalho ajuda pesquisadores a identificar espécies e compreender a circulação de agentes capazes de causar doenças em animais e seres humanos. No ranking brasileiro de Ciência Animal e Veterinária, ela ocupa a 50ª posição.
Antonio Carlos Martins Camargo completa o grupo na área de Biologia e Bioquímica. A trajetória do pesquisador inclui estudos sobre substâncias encontradas no veneno da jararaca e os mecanismos que controlam a pressão arterial. Essas investigações fizeram parte de uma importante linha da ciência brasileira dedicada a transformar moléculas encontradas na natureza em conhecimento útil para a medicina.
Como o ranking mediu a influência dos cientistas do Butantan
A classificação usa o chamado D-Index, uma versão do índice H calculada dentro da área de atuação de cada cientista. Em termos simples, o indicador combina a produção acadêmica com a repercussão dos estudos: não basta publicar muitos artigos, pois eles também precisam receber citações de outros pesquisadores.
Por isso, a presença na lista indica que os trabalhos dos cientistas do Butantan ajudaram a orientar novas pesquisas dentro e fora do Brasil. O ranking não avalia, porém, todos os aspectos de uma carreira científica. Atividades como formação de novos pesquisadores, atendimento à população e participação em políticas públicas não aparecem integralmente nesse tipo de indicador.
Ainda assim, o resultado dá visibilidade internacional à produção científica ligada ao instituto. Fundado em 1901, o Butantan reúne pesquisas, formação profissional e produção de vacinas e soros. O reconhecimento de sete de seus cientistas também reforça a presença do Brasil em áreas estratégicas para a saúde humana e animal.