Foram os ataques sofridos nas redes sociais que motivaram a criação de uma tecnologia que acabaria levando Veronyka Gimenes ao reconhecimento internacional. Hoje, ela é a única mulher brasileira citada na lista da Time dos 100 nomes mais influentes em inteligência artificial em 2026. Conhecida como Travahacker, a pesquisadora ajudou a desenvolver uma ferramenta capaz de identificar conteúdos de ódio contra pessoas LGBTQIA+ na internet.
Veronyka é cofundadora e diretora institucional da organização Código Não Binário. Em 2024, um trecho do podcast Entre Amigues viralizou e desencadeou ataques anti-trans contra a equipe e participantes do programa. Diante de milhares de mensagens ofensivas, o grupo começou a reunir os comentários para dimensionar a violência que enfrentava.
O trabalho resultou na coleta de mais de 12 mil comentários publicados em três plataformas. A partir desse material, a equipe desenvolveu a TybyrIA, uma inteligência artificial aberta criada para identificar hostilidade e discurso de ódio anti-LGBTQIA+ em português brasileiro.
A tecnologia passou a ajudar na análise de um volume de conteúdo que seria desgastante examinar manualmente. O projeto também usou parte dos dados organizados como evidência em uma ação civil pública contra grandes plataformas digitais, enquanto o trabalho de Veronyka ganhou reconhecimento na TIME100 AI 2026.
Brasileira na lista da Time transformou ataques em tecnologia
A TybyrIA surgiu de uma dificuldade prática. Ler e classificar manualmente milhares de ataques colocava a equipe novamente em contato com conteúdos violentos. A inteligência artificial passou a ajudar na triagem e na análise desse material em uma escala que seria difícil sustentar apenas com trabalho humano.
A tecnologia também teve uma consequência fora da pesquisa. O projeto usou dados coletados e analisados como evidências em uma ação civil pública contra Meta, Google, X e ByteDance, responsável pelo TikTok. A ação pede R$ 100 milhões em danos morais coletivos, além de medidas relacionadas ao combate ao conteúdo discriminatório nas plataformas. O processo não tem desfecho informado até o momento.
O modelo é aberto, o que permite que pesquisadores e organizações estudem seu funcionamento e utilizem a tecnologia em novas análises. A proposta, porém, não é entregar à máquina a decisão sobre quem cometeu uma agressão, mas facilitar a localização de conteúdos que precisam de avaliação humana.
Reconhecimento da Time vai além da ferramenta
A revista também considerou o trabalho de Veronyka para tornar o conhecimento sobre inteligência artificial mais acessível. A Código Não Binário mantém um curso sobre IA, soberania digital e autonomia tecnológica que registra mais de 1,6 mil inscrições.
Esse trabalho ajuda a explicar por que a Time colocou Veronyka entre seus 100 nomes de 2026. A lista não funciona como um ranking: os escolhidos são separados em categorias como Leaders, Innovators, Shapers e Thinkers.
Para a brasileira na lista da Time, o reconhecimento chega depois de uma resposta construída justamente a partir da violência que atingiu sua equipe. Os ataques não desapareceram por causa da tecnologia, mas deram origem a uma ferramenta que hoje permite documentar e analisar um problema que antes exigia a leitura manual de milhares de mensagens.
Outros três brasileiros também estão na lista da Time
Além de Veronyka, a seleção deste ano inclui outros três brasileiros: Cristiano Amon, Mike Krieger e Ana Helena Ulbrich.
Os quatro aparecem em áreas diferentes da inteligência artificial. Cristiano Amon foi reconhecido pelo trabalho à frente da Qualcomm, ligada ao desenvolvimento de semicondutores e processamento de IA. Mike Krieger aparece pela atuação no setor de tecnologia e produtos digitais, enquanto Ana Helena Ulbrich representa uma frente voltada à aplicação de inteligência artificial na saúde.
A presença dos quatro mostra a variedade das áreas em que brasileiros aparecem na seleção: de chips e grandes produtos tecnológicos à saúde e ao combate ao discurso de ódio. No caso de Veronyka, o destaque veio justamente pelo uso da tecnologia para enfrentar a violência contra pessoas LGBTQIA+ na internet.