O alagoano Arthur Sendas transformou uma dificuldade que conhece desde o nascimento em tecnologia para outras pessoas. Diagnosticado com acromatopsia, condição que impede a percepção de cores e reduz sua acuidade visual, ele ajudou a criar um app para deficientes visuais capaz de descrever o ambiente e apoiar tarefas do dia a dia.
A ferramenta, chamada See U, usa inteligência artificial, ecolocalização e áudio 3D. Com a câmera do celular, o sistema reconhece objetos e textos, descreve cenários e transmite informações por som para pessoas cegas ou com baixa visão.
A ideia nasceu de uma necessidade pessoal. Arthur, natural de Arapiraca, não percebe profundidade como a maioria das pessoas e pode ter dificuldade para identificar obstáculos. Na faculdade, essa experiência se encontrou com a de Sérgio Gomes Júnior, colega que enfrentava uma doença degenerativa e perderia a visão.
O projeto evoluiu de protótipos físicos para um aplicativo e virou negócio. Em 2026, a empresa informou faturamento de cerca de R$ 100 mil por mês e mais de mil assinantes. O crescimento veio depois de anos de desenvolvimento e de uma trajetória marcada também pela morte de Júnior, em 2023.
App para deficientes visuais traduz o ambiente em som
Na prática, a proposta é converter informações que normalmente dependem da visão em dados que o usuário consiga receber por áudio. A câmera capta o ambiente, enquanto os recursos do aplicativo identificam elementos e devolvem orientações.
Isso pode ajudar a distinguir objetos parecidos, compreender o que existe ao redor ou acessar textos. A tecnologia não substitui todos os recursos de mobilidade de uma pessoa cega, mas acrescenta uma ferramenta para obter informações com mais independência.
O desenvolvimento também chegou ao ensino. Em maio de 2025, o Governo de Alagoas e a See U firmaram um acordo de pesquisa, desenvolvimento e inovação para testar a solução no programa OxeTech, em capacitações tecnológicas voltadas também a alunos cegos ou com baixa visão.
Tecnologia criada em Alagoas chegou à formação profissional
O acordo publicado no Diário Oficial de Alagoas previa 12 meses de vigência, com possibilidade de prorrogação, e não envolvia repasse de recursos públicos à empresa. O objetivo era validar a solução em um ambiente real de aprendizagem e apoiar a inclusão educacional.
Esse teste levou a tecnologia para além do uso individual. Em vez de ficar restrito ao celular de quem já conhece o serviço, o aplicativo passou a ser avaliado em situações concretas de estudo e preparação profissional.
Para Arthur, autonomia está ligada à possibilidade de fazer algo que antes parecia fora de alcance. No caso do See U, a consequência prática é essa: transformar câmera, áudio e inteligência artificial em apoio para que pessoas cegas ou com baixa visão tenham mais informação sobre o ambiente ao redor.