Aos 10 anos, Rosilene de Santana Souza chegou a ficar sem estudar porque não havia professor na comunidade rural onde vivia, no sertão da Bahia. Dois anos depois, saiu de casa com a irmã para buscar escola em Oliveira dos Brejinhos. Décadas mais tarde, a jovem que trabalhou como doméstica virou juíza e hoje é titular da 2ª Vara Cível de Cruzeiro do Sul, no Acre.
A mudança exigiu uma rotina distante da infância comum. Rosilene e a irmã, Regina, percorreram cerca de 30 quilômetros até a cidade e passaram a morar sozinhas. Para conseguir estudar, dividiram uniforme e calçado e enfrentaram períodos de fome.
Na cidade, Rosilene fazia pequenos trabalhos como doméstica por cerca de R$ 20 por serviço. Aos 19 anos, concluiu o ensino médio, mas o salário ainda não permitia pagar a faculdade de Direito.
Ela então cursou Edificações em um instituto federal, conseguiu um emprego com renda maior e, depois, uma bolsa de 50% para seguir na graduação. Foi uma etapa intermediária importante para conseguir continuar os estudos.
Doméstica virou juíza após trajetória marcada pela busca por estudo
Rosilene foi aprovada no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) ainda no 9º período da faculdade e passou a atuar como advogada. Depois, começou a tentar concursos públicos para chegar à magistratura.
Ao todo, prestou 14 concursos antes da aprovação que a levou ao Tribunal de Justiça do Acre (TJAC). No concurso para a magistratura acreana, conquistou o primeiro lugar.
Rosilene tomou posse como juíza substituta em 8 de dezembro de 2022. A cerimônia reuniu 15 novos magistrados aprovados no 20º Concurso da Magistratura do Acre, que teve 2.711 inscritos.
Falta de professor marcou o início da trajetória
Antes de a doméstica virar juíza, Rosilene estudou em uma escola rural onde uma única professora atendia crianças de diferentes séries e ainda preparava a merenda. Segundo relato da magistrada, a escola só ganhou biblioteca quando ela já estava no segundo ano do ensino médio.
A falta de professor aos 10 anos interrompeu temporariamente os estudos. Aos 12, ela deixou a comunidade para conseguir continuar na escola, mesmo longe da família e com poucos recursos.
A dificuldade de acesso à educação acompanhou boa parte do início da trajetória. Rosilene precisou trabalhar, encontrar formas de melhorar a renda e buscar alternativas para chegar à faculdade de Direito.
Hoje, Rosilene é juíza titular no Acre
A aprovação no concurso não foi o ponto final da história. Em 2026, o Tribunal de Justiça do Acre mantém Rosilene de Santana Souza como juíza titular da 2ª Vara Cível de Cruzeiro do Sul.
O cargo atual dá uma dimensão concreta à trajetória iniciada ainda na infância. A menina que precisou sair de casa para não interromper os estudos e que mais tarde trabalhou como doméstica virou juíza e hoje ocupa de forma titular uma vara da Justiça acreana.