Uma observação de aves feita aos 13 anos despertou em Kauê Costa uma curiosidade científica que mudaria o rumo de sua vida. Anos depois, o pesquisador brasileiro passou a integrar uma seleção internacional de cientistas em início de carreira organizada pela revista Scientific American.
A pergunta que começou na adolescência evoluiu para um desafio bem diferente: entender como o cérebro aprende com as experiências e transforma essas informações em decisões e comportamentos. Hoje, esse é o foco das pesquisas conduzidas por Kauê na Universidade do Alabama em Birmingham (UAB), nos Estados Unidos.
Os estudos procuram explicar como diferentes circuitos cerebrais registram memórias, reconhecem padrões e utilizam experiências anteriores para orientar ações futuras. Esse conhecimento ajuda a compreender mecanismos fundamentais da aprendizagem e do comportamento.
A trajetória que levou o brasileiro até esse campo de pesquisa passou pela graduação em Ciências Biológicas na Universidade Federal do Pará (UFPA), pelo mestrado em Psicologia na Universidade de São Paulo (USP), pelo doutorado em Neurociência na Universidade Goethe de Frankfurt e pela Escola Internacional de Pesquisa Max Planck para Circuitos Neurais, além de um pós-doutorado nos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), nos Estados Unidos.
Curiosidade científica abriu caminho para novas descobertas sobre o cérebro
No laboratório que coordena, Kauê e sua equipe combinam experimentos comportamentais com tecnologias capazes de registrar e manipular a atividade de células cerebrais. As pesquisas investigam como regiões do cérebro trabalham em conjunto durante o aprendizado e de que forma esse processo influencia as decisões tomadas pelos animais.
Entre os temas estudados estão a dopamina, a aprendizagem associativa, o córtex frontal e os gânglios da base. Em vez de analisar apenas uma substância ou uma região cerebral isoladamente, os pesquisadores procuram compreender como esses sistemas interagem para construir comportamentos.
Um dos trabalhos desenvolvidos pelo grupo mostrou que a dopamina pode exercer uma função mais ampla do que a tradicionalmente atribuída a ela. Além de participar do processamento de experiências positivas e negativas, o neurotransmissor também pode ajudar o cérebro a utilizar acontecimentos anteriores para antecipar situações futuras, tornando o aprendizado mais eficiente.
As descobertas ajudam a ampliar o conhecimento sobre os mecanismos que permitem ao cérebro aprender continuamente com o ambiente. Embora as pesquisas sejam realizadas em modelos experimentais, elas contribuem para responder perguntas fundamentais da neurociência sobre memória, adaptação e tomada de decisões.
Scientific American reconhece trajetória construída desde a adolescência
A Scientific American selecionou Kauê entre 28 pesquisadores em início de carreira que desenvolvem pesquisas nos Estados Unidos. A escolha levou em conta indicações de especialistas, produção científica, inovação e impacto das pesquisas.
A revista ressalta que a seleção não representa um ranking dos melhores cientistas de cada área. O objetivo é destacar pesquisadores cujos estudos apresentam potencial para ampliar o conhecimento científico e impulsionar novas investigações.
No caso de Kauê, o reconhecimento também evidencia como uma curiosidade científica despertada durante a adolescência pode evoluir para pesquisas que ajudam a explicar um dos maiores desafios da biologia: compreender como o cérebro aprende, guarda experiências e utiliza esse conhecimento para orientar o comportamento.