Quando a pandemia reduziu os voos e trouxe incertezas para a aviação, Tati Mônico precisava encontrar uma maneira de continuar pagando as terapias dos dois filhos autistas. A mãe piloto decidiu então levar para a internet aquilo que conhecia de perto: os bastidores da aviação e a própria rotina entre a cabine e a maternidade.
O que começou como uma alternativa para complementar a renda cresceu. Conhecida nas redes como Tati Piloto, a goiana passou a reunir milhões de seguidores com vídeos sobre aviões, viagens e situações que despertam a curiosidade — e, muitas vezes, o medo — dos passageiros.
A nova atividade, porém, não significou abandonar o sonho que acompanha Tati desde a infância. Ela continuou voando e, em maio de 2025, alcançou outro marco profissional: foi promovida a comandante de Boeing 737 da GOL, depois de cerca de 15 anos como copiloto da companhia.
Por trás da presença bem-humorada nas redes está uma rotina construída para conciliar duas prioridades. Tati é mãe de Luna e Eric, ambos diagnosticados com transtorno do espectro autista (TEA), e já contou publicamente que conseguiu uma escala de trabalho adaptada para acompanhar as necessidades dos filhos.
Mãe piloto encontrou na internet uma forma de manter as terapias
A entrada de Tati no universo dos vídeos ganhou força durante a pandemia de Covid-19. Com a redução da atividade aérea, ela viu a renda diminuir justamente quando precisava manter os custos relacionados às terapias das crianças.
Foi nesse contexto que começou a produzir conteúdo. A aviação fornecia assunto para os vídeos, mas havia uma razão bastante concreta fora das câmeras: garantir a continuidade do acompanhamento dos filhos.
Com o crescimento do público, aquela alternativa passou a ocupar um espaço próprio na vida profissional da piloto. Tati começou a explicar situações comuns de um voo, responder dúvidas de passageiros e mostrar uma profissão que ainda costuma ser associada principalmente aos homens.

Dos primeiros voos ao comando de um Boeing
O interesse de Tati pela aviação começou muito antes das redes sociais. Nascida em Goiás e criada no interior, ela teve contato com aviões ainda criança e iniciou a graduação em Ciências Aeronáuticas em 2003.
A carreira avançou até a aviação comercial. Segundo informações divulgadas pela própria piloto nas redes sociais, ela ingressou na GOL em 2010 e acumulou mais de 7 mil horas de voo ao longo da trajetória.
Em 2025, veio a promoção para comandante. A conquista acrescentou um novo capítulo a uma história que, naquele momento, já não cabia apenas dentro do avião: Tati havia construído paralelamente uma comunidade nas redes a partir da necessidade de cuidar dos filhos.
Conteúdo também aproxima passageiros da aviação
Parte dos vídeos da Tati Piloto responde a perguntas que surgem dentro de qualquer avião: por que a aeronave balança, o que acontece durante uma turbulência ou como pilotos lidam com determinadas situações durante o voo.
Ao compartilhar o conhecimento acumulado na cabine, ela também passou a conversar com pessoas que têm medo de viajar de avião e com jovens interessados na profissão. A experiência profissional, portanto, virou a matéria-prima do trabalho que nasceu para complementar a renda familiar.
Para Tati, os dois caminhos continuam juntos. A mãe piloto que começou a gravar para ajudar a manter as terapias dos filhos segue na cabine, agora como comandante, enquanto transforma situações da própria profissão em conteúdo para quem acompanha sua rotina pela tela.
Mãe piloto faz parte de um grupo que ainda é minoria na aviação
Chegar ao comando de um Boeing também coloca Tati Mônico em um grupo ainda pequeno na aviação brasileira. Segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), apenas 3,2% dos pilotos no país são mulheres.
A participação feminina ainda é pequena. Por isso, a agência mantém o programa Mulheres na Aviação, dentro do Asas para Todos, para incentivar a entrada de mais meninas e mulheres no setor. A iniciativa reúne governo, empresas aéreas, universidades e entidades ligadas à aviação.
No caso de Tati, essa presença também ganhou alcance fora da cabine. Ao mostrar nas redes sociais a rotina de uma piloto e mãe, ela alcançou milhões de seguidores. Tati também deu visibilidade a uma profissão na qual as mulheres ainda são minoria.