Foi um bilhete que levou uma professora a ajudar a salvar a mãe de um dos alunos dela. A mulher, de 22 anos, que vivia em cárcere privado, em Gongogi, no sul da Bahia, não conseguia contato com a família e encontrou no caderno escolar do filho de sete anos uma forma de fazer o pedido de socorro chegar até a escola.
A mensagem foi entregue pelo menino à professora. Nos bilhetes, a mulher relatou ameaças de morte e pediu ajuda. Em uma das páginas, também desenhou uma mulher chorando. A educadora procurou a Polícia Militar depois de receber os recados.
Segundo a Polícia Civil, os agentes passaram a acompanhar a rotina do imóvel e observaram que a mulher não saía da residência. O suspeito, de 27 anos, foi preso nesta quarta-feira (02/09), em cumprimento a um mandado de prisão.
A vítima contou à polícia que mantinha um relacionamento com o homem desde os 13 anos e que os dois têm dois filhos, um de sete anos e outro de um ano e dois meses. Segundo o relato dela, as ameaças e agressões ocorreram durante cerca de oito anos.
Bilhete com pedido de socorro chegou à professora pelo filho
De acordo com a polícia, a situação se agravou recentemente, quando o homem passou a impedir que a mulher saísse de casa e mantivesse contato com familiares.
Sem conseguir procurar ajuda diretamente, ela escreveu os recados no material escolar do filho mais velho e pediu que o menino os levasse à professora.
Nas mensagens divulgadas, a jovem relatava que recebia ameaças de morte quase todos os dias e dizia precisar de ajuda para sair daquela situação. Em outro bilhete, contou que era ameaçada caso tentasse ir embora.
“Estou escrevendo para pedir ajuda mais uma vez, porque estou que não aguento mais. Quase todos os dias é uma ameaça de morte. Vocês pediram pra eu esperar a ajuda, mas só que essa ajuda nunca chegou”, diz o bilhete.

Professora acionou a polícia depois de receber os bilhetes
Ao perceber a gravidade das mensagens, a professora procurou a Polícia Militar. A partir da denúncia, os policiais iniciaram o acompanhamento da residência até a realização da operação.
O suspeito foi preso na quarta-feira e, nesta quinta-feira (03/09), permanecia detido aguardando audiência de custódia.
O caso também demonstra que uma denúncia de violência doméstica não precisa partir exclusivamente da vítima. Familiares, vizinhos, professores ou qualquer pessoa que tenha conhecimento da situação podem procurar os canais de atendimento.
O que pode acontecer com uma mulher depois do resgate
O resgate não significa necessariamente que a mulher volte para casa ou seja encaminhada imediatamente para um abrigo. O atendimento depende da situação de risco e das necessidades de cada vítima. A rede de proteção pode envolver assistência social, atendimento psicológico, orientação jurídica, acolhimento temporário e medidas para impedir a aproximação do agressor.
Mulheres sob risco de morte ou ameaça podem ser encaminhadas, inclusive acompanhadas pelos filhos, para serviços de acolhimento e casas-abrigo. A Bahia mantém uma rede formada por casas-abrigo, casas de acolhimento, Centros de Referência de Atendimento à Mulher, delegacias especializadas e outros serviços. Já a Casa da Mulher Brasileira, em Salvador, reúne atendimento psicossocial, delegacia, Defensoria Pública, Justiça e alojamento de passagem.
Outra possibilidade é a medida protetiva de urgência. Ela pode determinar, por exemplo, o afastamento do agressor e outras formas de proteção à mulher e aos dependentes. Na Bahia, a Ronda Maria da Penha atua no acompanhamento de mulheres que já possuem medidas protetivas determinadas pela Justiça.
A Lei Maria da Penha também permite que um juiz conceda auxílio-aluguel por até seis meses à mulher afastada de casa que esteja em situação de vulnerabilidade social e econômica. O valor depende da análise de cada caso e a concessão não é automática.
Até o momento, as informações divulgadas sobre o caso de Gongogi não detalham para onde a mulher e os filhos foram encaminhados nem quais medidas de proteção foram concedidas a ela.
Para denunciar violência contra a mulher, o Ligue 180 funciona gratuitamente 24 horas e recebe denúncias inclusive de terceiros. Em situação de emergência ou risco imediato, o canal indicado é o 190.