Uma jovem com tumor cerebral diagnosticado aos 6 anos se forma após passar mais de uma década conciliando o estudo no hospital com sessões de quimioterapia. Ao todo, foram cerca de 30 cirurgias e longos períodos de internação no Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer (Graacc).
Ao longo desse percurso, Ana Clara Martinez Blecha, hoje com 18 anos, contou com o apoio da Escola Móvel, iniciativa que garante a continuidade da aprendizagem durante o tratamento. O projeto atende crianças e adolescentes que não conseguem frequentar regularmente as salas de aula convencionais.
Além disso, a estudante avançou por todas as etapas da educação básica sem registrar repetências, mesmo durante os períodos mais intensos dos cuidados médicos.
Agora, Ana Clara se prepara para uma nova etapa. No fim do ano, pretende realizar novamente o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para disputar uma vaga no curso de psicologia.
Estudo no hospital continuou mesmo após a perda da visão
As aulas passaram a fazer parte da rotina logo após o diagnóstico. Durante o primeiro ano de tratamento, Ana Clara enfrentou dez cirurgias e perdeu a visão após uma das intervenções.
Por cerca de quatro meses, ela permaneceu sem enxergar. Mesmo assim, os professores continuaram acompanhando seu desenvolvimento. Nesse período, liam livros em voz alta e transformavam as histórias em atividades de aprendizagem e conversa.
Nos momentos mais difíceis, Ana Clara chegou a pedir aulas durante todo o dia. Segundo a estudante, o aprendizado ajudava a tornar a rotina do tratamento mais leve.
Uma lembrança permanece viva. No 3º ano do ensino fundamental, a estudante encontrou um professor de matemática em um corredor do hospital e comentou sua dificuldade com multiplicação. Então, entre uma consulta e outra, recebeu uma explicação que a ajudou a compreender as contas.
Escola Móvel do Graacc já atendeu mais de 6 mil estudantes
Criada em 2000, a iniciativa realiza um trabalho complementar à matrícula regular dos pacientes. Dessa forma, os alunos continuam vinculados às escolas de origem enquanto recebem acompanhamento pedagógico durante internações e consultas.
Os educadores possuem formação específica em atendimento escolar hospitalar. Além disso, as atividades são adaptadas de acordo com a condição clínica, o ritmo de aprendizagem e as necessidades individuais de cada estudante.
Segundo o coordenador Edmar Silva, a proposta busca garantir o direito à educação durante o tratamento. Desde a criação do programa, mais de 6 mil crianças e adolescentes passaram pelo atendimento.
Jovem com tumor cerebral se forma após anos de aulas no hospital
Em 2022, após três anos de estabilidade, o tumor voltou a crescer. Como resultado, Ana Clara passou por uma cirurgia de mais de dez horas e precisou reaprender a andar, falar e sorrir durante a recuperação.
Mesmo nesse período, os professores mantiveram o acompanhamento pedagógico. Posteriormente, a estudante conseguiu retornar à escola regular e concluiu o 9º ano com o conteúdo em dia.
Dois anos depois, a visão voltou a apresentar comprometimento. Atualmente, ela possui visão residual e realizou o Enem no hospital com apoio de profissionais responsáveis pela leitura das questões e pelo registro das respostas.
No fim de 2026, a estudante tentará novamente uma vaga no ensino superior. O objetivo é cursar psicologia e atuar em hospitais.
A escolha tem relação direta com a própria trajetória. Por isso, Ana Clara pretende trabalhar com pacientes que enfrentam jornadas semelhantes à que vive desde a infância.
Ao explicar o que os estudos representaram durante o tratamento, a jovem resume a própria caminhada: “A educação é uma janela aberta. A gente precisa ter coragem para pular essa janela e conhecer o mundo.”
