Alfabetização na terceira idade: Órfão e sem acesso à escola, Severino conquista diploma aos 94 anos

A alfabetização na terceira idade transformou a vida de Severino Nascimento da Silva, que aos 94 anos realizou o sonho de aprender a ler e escrever. Sua história mostra como a educação continua sendo uma ferramenta de autonomia, inclusão social e envelhecimento ativo, mesmo após décadas de exclusão escolar.
Severino participa da formatura aos 94 anos após concluir processo de alfabetização na terceira idade no Piauí
Severino participa da formatura aos 94 anos após concluir processo de alfabetização na terceira idade no Piauí. (Foto: Rerodução/ Redes Sociais)

A alfabetização na terceira idade mudou a vida de Severino Nascimento da Silva aos 94 anos. Depois de passar quase um século sem acesso regular à escola, o aposentado realizou o sonho de aprender a ler e escrever, participou de uma cerimônia de formatura em Teresina, Piauí, e se tornou símbolo de como a educação continua capaz de gerar autonomia, inclusão e novas oportunidades. A conquista também evidencia como aprender a ler na velhice pode ampliar a independência, facilitar o acesso a serviços públicos e reduzir a dependência de terceiros em atividades do cotidiano.

A conquista representa mais do que um diploma. Para Severino, significa alcançar algo que lhe foi negado desde a infância. Órfão ainda criança e obrigado a trabalhar para sobreviver, ele cresceu sem a oportunidade de frequentar a escola regularmente. Décadas depois, a volta aos estudos permitiu realizar um sonho que permaneceu vivo durante toda a sua trajetória.

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Sua história também chama atenção para uma realidade que marcou gerações de brasileiros. Milhares de pessoas precisaram trocar a sala de aula pelo trabalho ainda na infância, acumulando anos de exclusão educacional. Nesse contexto, a educação para idosos surge como uma ferramenta de inclusão capaz de reduzir desigualdades históricas.

A história de Severino interessa não apenas pelo caráter inspirador. Ela ajuda a entender como a alfabetização na terceira idade pode transformar a vida de milhares de brasileiros que ainda enfrentam dificuldades para ler documentos, compreender receitas médicas, acessar serviços públicos ou exercer plenamente sua autonomia. Em um país onde o analfabetismo ainda atinge principalmente a população mais velha, o caso mostra como o acesso à educação continua produzindo efeitos concretos sobre qualidade de vida, independência e participação social.

A vida inteira esperando pela oportunidade de estudar

Severino conta que começou a trabalhar aos seis anos de idade para garantir o próprio sustento. Sem conhecer os pais e enfrentando dificuldades desde a infância, viu a necessidade de trabalhar ocupar o espaço que gostaria de dedicar aos estudos.

Mesmo diante dos obstáculos, nunca abandonou o desejo de aprender. As tentativas de ingressar na escola ao longo da vida acabaram frustradas, adiando por décadas um sonho que só seria realizado aos 94 anos.

Com o passar dos anos, vieram o casamento, a criação dos filhos e as responsabilidades do cotidiano. Ao longo da vida, ele construiu uma família, teve sete filhos e trabalhou para garantir o sustento da casa. Ainda assim, carregava o sentimento de não ter tido acesso à educação e de não conseguir oferecer aos filhos o apoio escolar que gostaria.

A oportunidade surgiu por meio do Programa Alfabetiza Piauí, iniciativa voltada à alfabetização de adultos e idosos dentro da modalidade Educação de Jovens e Adultos (EJA). Na última semana, Severino participou da cerimônia de formatura ao lado de cerca de mil estudantes.

Alfabetização na terceira idade: Por que tantos idosos brasileiros não tiveram acesso à escola?

A trajetória de Severino reflete uma realidade vivida por milhões de brasileiros nascidos em décadas em que o acesso à educação era mais limitado, especialmente em áreas rurais e regiões com menor infraestrutura escolar. Para muitas famílias, o trabalho infantil era visto como uma necessidade de sobrevivência, reduzindo as oportunidades de permanência na escola.

Esse cenário ajuda a explicar por que o analfabetismo ainda está concentrado entre as gerações mais velhas. Embora o acesso à educação tenha avançado significativamente nas últimas décadas, muitos idosos carregam até hoje as consequências de uma exclusão escolar iniciada na infância.

Como a alfabetização ajuda idosos a ganhar autonomia

A história de Severino ajuda a explicar por que a alfabetização na terceira idade vai muito além da conquista de um certificado.

Aprender a ler e escrever amplia a independência para lidar com situações do dia a dia, como compreender documentos, identificar informações importantes, acompanhar orientações médicas, utilizar serviços públicos e realizar tarefas que antes dependiam da ajuda de terceiros.

Entre as conquistas mais valorizadas por estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA) está a possibilidade de escrever o próprio nome sem ajuda, compreender documentos e tomar decisões com mais independência. São avanços que podem parecer simples, mas representam ganhos concretos de autonomia para quem passou décadas dependendo de outras pessoas para tarefas básicas envolvendo leitura e escrita.

Por isso, especialistas em educação frequentemente apontam que a aprendizagem ao longo da vida não está ligada apenas ao conhecimento formal. Ela contribui para a participação social e para o exercício da cidadania, permitindo que mais pessoas tenham acesso a direitos e oportunidades.

Educação e envelhecimento ativo caminham juntos

A experiência vivida por Severino também reforça a importância da educação para o envelhecimento ativo.

Essa visão é compartilhada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), que defende a aprendizagem ao longo da vida como um direito que deve acompanhar as pessoas em todas as etapas da existência. O princípio considera que o acesso ao conhecimento não deve ser limitado pela idade, mas permanecer disponível ao longo de todo o ciclo de vida.

Estudar estimula a memória, amplia a convivência social e cria novos objetivos pessoais. O retorno à sala de aula também cria oportunidades de interação e pertencimento, aspecto valorizado por muitos estudantes da terceira idade.

Ao relatar a emoção da formatura, Severino afirmou que nunca imaginou viver aquele momento. Mais do que concluir uma etapa, ele demonstra vontade de continuar aprendendo e seguir estudando.

Sua trajetória reforça o papel da educação como instrumento de participação social, inclusão e desenvolvimento pessoal ao longo da vida.

Alfabetização na terceira idade: Uma conquista individual que representa um desafio coletivo

A formatura de Severino ocorre em um contexto maior de combate ao analfabetismo e ampliação do acesso à educação.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as maiores taxas de analfabetismo do país continuam concentradas entre os brasileiros mais velhos, reflexo de décadas em que o acesso à escola era limitado para parte da população. Histórias como a de Severino ajudam a ilustrar uma realidade que ainda afeta milhares de idosos.

Em apenas dois anos, o Programa Alfabetiza Piauí já alfabetizou aproximadamente 50 mil piauienses, oferecendo transporte, alimentação e incentivos financeiros para estimular a permanência dos alunos nas salas de aula.

Embora a história tenha um forte componente individual, ela representa uma questão coletiva. Muitos brasileiros chegaram à vida adulta sem concluir os estudos ou sem acesso à alfabetização básica, principalmente em regiões marcadas por desigualdades sociais históricas.

Nesse cenário, programas voltados à alfabetização na velhice, à inclusão educacional e à retomada dos estudos desempenham papel importante na redução dessas barreiras.

Aos 94 anos, Severino mostra que o acesso à educação pode gerar mudanças concretas mesmo após décadas de exclusão escolar. Sua história reforça que alfabetizar adultos e idosos não significa apenas ensinar letras e palavras, mas ampliar autonomia, fortalecer a cidadania e criar oportunidades para que mais pessoas participem plenamente da vida em sociedade.

Foto de Caroll Medeiros

Caroll Medeiros

Caroll Medeiros é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Integra a equipe do Boa Notícia Brasil, contribuindo com reportagens pautadas por checagem rigorosa, ética profissional e compromisso com temas de interesse público.

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