A proteção dos manguezais passou a produzir resultados mensuráveis em diferentes regiões do planeta, com a expansão dessas florestas superando as perdas anuais após décadas de retração. Os dados da Universidade Tulane, nos Estados Unidos foram divulgados nesta segunda-feira (15/06) em um estudo que identificou uma reversão da tendência global de declínio desses ecossistemas costeiros.
A mudança amplia a proteção de comunidades costeiras contra eventos extremos, fortalece atividades ligadas à pesca e contribui para reduzir impactos provocados por ressacas, inundações e tempestades em áreas próximas ao mar.
O levantamento identificou uma redução expressiva das perdas acumuladas ao longo das últimas décadas. Entre os anos 1980 e 2010, mais de 12 mil km² de manguezais desapareceram na Ásia, África e continente americano, mas a área líquida perdida foi reduzida posteriormente para cerca de 849 km².
Outro resultado observado foi o fortalecimento estrutural dessas florestas. Os manguezais com dossel fechado, considerados os mais ricos em carbono, registraram aumento próximo de 20% desde os anos 1980, ampliando os ganhos associados à preservação dos manguezais.
Proteção dos manguezais amplia a segurança das regiões costeiras
A principal contribuição desses ambientes ocorre na faixa litorânea. As raízes dos mangues funcionam como uma barreira natural costeira, reduzindo a força das ondas e ajudando a conter os efeitos de ressacas, marés de tempestade e tsunamis.
Além dos benefícios ambientais, essa proteção natural ajuda a reduzir prejuízos associados a inundações e eventos extremos, funcionando como uma infraestrutura natural capaz de absorver parte da energia das ondas antes que elas atinjam áreas habitadas, empreendimentos e estruturas urbanas próximas ao mar.
Essa função ganhou visibilidade em países que sofreram grandes desastres naturais. Na Indonésia, o tsunami de 2004 ampliou a percepção sobre os benefícios da conservação dos manguezai s, após a observação de áreas protegidas pela vegetação que resistiram melhor à força das águas. Em Mianmar, eventos climáticos extremos e medidas nacionais contra o desmatamento também contribuíram para a expansão natural dessas florestas.
Manguezais contra tempestades também fortalecem a captura de carbono
Além da proteção física do litoral, os mangues desempenham papel relevante no armazenamento de gases associados ao aquecimento global. O estudo aponta que a captura de carbono pelos manguezais pode alcançar índices até cinco vezes superiores aos observados em muitas florestas terrestres quando comparada por área.
Os manguezais também integram os chamados ecossistemas de carbono azul, categoria formada por ambientes costeiros capazes de armazenar grandes volumes de carbono nos sedimentos por longos períodos. Esse grupo é frequentemente citado por organismos internacionais como aliado natural na mitigação das mudanças climáticas.
A expansão observada na última década amplia essa capacidade de armazenamento e fortalece mecanismos ambientais ligados à estabilidade climática. O crescimento ocorreu principalmente após a redução da derrubada de árvores em regiões historicamente afetadas pela criação de peixes, agricultura e ocupação urbana.
Os pesquisadores atribuem parte desse avanço à própria capacidade de regeneração desses ecossistemas. Quando a pressão humana diminui, a recuperação dos manguezais acontece de forma espontânea em muitas áreas, acelerando a recomposição da cobertura vegetal.
Proteção dos manguezais beneficia biodiversidade, pesca e alimentação
As raízes submersas formam áreas de abrigo para inúmeras espécies marinhas durante as fases iniciais da vida. Esse ambiente fornece alimento e proteção contra predadores, favorecendo a reprodução de peixes, crustáceos e outros organismos essenciais para a biodiversidade marinha.
Diversas espécies de interesse comercial passam parte do ciclo de vida nos manguezais, o que transforma esses ambientes em uma base natural para atividades pesqueiras que sustentam renda, trabalho e abastecimento alimentar em diferentes regiões costeiras.
O levantamento identificou mais áreas regeneradas do que avaliações globais anteriores haviam registrado. Os resultados foram obtidos por meio de imagens dos satélites Landsat, capazes de detectar mudanças na cobertura vegetal com maior precisão.
No Brasil e em outros países, pesquisadores observaram expansão de manguezais em determinados trechos costeiros e margens de rios. O país reúne uma das maiores áreas contínuas de manguezais do planeta ao longo da costa atlântica, condição que o coloca entre os territórios mais relevantes para a conservação desse ecossistema em escala global.
A recuperação observada pelo estudo indica que a preservação desses ambientes pode gerar ganhos simultâneos para clima, produção pesqueira e segurança costeira, ampliando a proteção natural de milhões de pessoas que vivem em áreas próximas ao mar e fortalecendo uma das soluções naturais mais eficientes para enfrentar riscos climáticos e ambientais.
