Banco vivo protege jaborandi, a única fonte natural de substância usada no tratamento do glaucoma

Um banco vivo criado na Amazônia protege o jaborandi, planta que fornece a única fonte natural de pilocarpina usada em medicamentos. Entenda por que a iniciativa une saúde, ciência e conservação.
O banco vivo vai ajudar na preservação do jaborandi, que é a principal fonte de traatamento contra o glaucoma hoje.
O banco vivo para o jjaborandi vai ajudar a preservar a única fonte natural de tratamento contra o glaucoma. (Foto: Aflo/Canva)

Uma planta da Amazônia da qual dependem medicamentos usados no tratamento do glaucoma passou a contar com uma nova proteção. Na sexta-feira (13/06), pesquisadores anunciaram a criação de um banco vivo de jaborandi (Pilocarpus microphyllus) na Floresta Nacional de Carajás, no Pará. O projeto busca evitar a perda da única fonte natural conhecida de pilocarpina, substância utilizada por pacientes em diferentes partes do mundo.

A pilocarpina extraída do jaborandi integra tratamentos para glaucoma, síndrome de Sjögren e xerostomia, condição associada à redução da produção de saliva. Como a ciência ainda não dispõe de uma alternativa sintética consolidada para substituir o composto natural, a preservação da espécie passou a interessar também à área da saúde.

Apoio

O jaborandi está classificado como vulnerável na Lista Vermelha da Flora Brasileira. Décadas de coleta inadequada e a perda de áreas naturais contribuíram para pressionar populações da espécie, aumentando a preocupação sobre o futuro do fornecimento da matéria-prima utilizada na produção de medicamentos.

Os pesquisadores criaram a coleção em áreas de restauração ecológica dentro da própria floresta, transformando antigos terrenos minerados em espaços destinados à preservação genética da espécie.

Banco vivo surgiu porque as sementes não resistem ao armazenamento

Os métodos tradicionais de conservação não funcionam bem com o jaborandi. As sementes da espécie perdem rapidamente a capacidade de germinação, o que dificulta a formação de estoques para preservação genética de longo prazo.

Diante desse obstáculo, pesquisadores do Instituto Tecnológico Vale Desenvolvimento Sustentável (ITV) optaram por criar um banco de germoplasma com plantas vivas. Em vez de armazenar sementes, a equipe passou a cultivar exemplares em condições semelhantes às encontradas na própria floresta.

As áreas escolhidas permitiram combinar recuperação ambiental e conservação genética, mantendo exemplares vivos da espécie em ambiente semelhante ao encontrado na natureza.

Banco vivo de jaborandi supera 1.500 plantas preservadas

Entre 2020 e 2023, os pesquisadores coletaram sementes de quatro populações geneticamente distintas encontradas na floresta. As mudas produzidas em viveiro foram transferidas para áreas anteriormente utilizadas pela mineração e que hoje passam por recuperação ambiental.

A equipe acompanhou cada planta individualmente desde sua origem. O monitoramento permitiu identificar perdas ao longo do processo e aperfeiçoar as estratégias de coleta e produção de mudas durante as campanhas realizadas no período.

Três das quatro populações avaliadas ultrapassaram 500 plantas preservadas cada, garantindo representação genética considerada adequada pelos pesquisadores.

Método criado para o jaborandi pode proteger outras espécies ameaçadas

O projeto conta com a participação da CoEx-Carajás, cooperativa formada por famílias que manejam o jaborandi há gerações. Os cooperados colaboram na coleta de sementes e participam da avaliação das ações de conservação desenvolvidas pelos pesquisadores.

Além de proteger a espécie responsável pela produção de pilocarpina natural, a iniciativa fortalece pesquisas voltadas ao uso sustentável da planta e contribui para o enriquecimento das áreas em recuperação dentro da floresta.

O artigo detalha todas as etapas de coleta, cultivo e monitoramento para que outras equipes possam reproduzir a estratégia em espécies que também não resistem ao armazenamento convencional de sementes.

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