Duas gêmeas unidas pela cabeça voltaram para casa após meses de recuperação e quatro cirurgias que permitiram a separação de tecidos cerebrais e vasos sanguíneos compartilhados desde o nascimento. O procedimento foi realizado em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, quando as irmãs nigerianas tinham 19 meses.
As crianças nasceram com uma condição rara conhecida como craniópago. Elas compartilhavam estruturas cerebrais e vasos sanguíneos, característica que exigiu a atuação de dez neurocirurgiões e mais de 60 profissionais de saúde de 20 nacionalidades.
Entre os especialistas esteve o neurocirurgião pediátrico brasileiro Gabriel Mufarrej. A equipe também contou com as médicas brasileiras Clarice Abreu, cirurgiã plástica, e Mariana Tonon, anestesista pediátrica, além de profissionais do Reino Unido, Emirados Árabes Unidos e Nigéria.
A recuperação das pacientes encerrou um processo que exigiu meses de preparação e o uso de tecnologias digitais avançadas. Os recursos ajudaram a planejar cada etapa antes do início do tratamento e contribuíram para a execução das intervenções.
Gêmeas unidas pela cabeça passaram por planejamento digital detalhado
A equipe médica utilizou inteligência artificial na medicina para analisar exames e construir representações digitais da anatomia compartilhada pelas irmãs. O material permitiu estudar previamente a posição das estruturas envolvidas.
Os especialistas também recorreram à modelagem tridimensional do crânio, à realidade virtual e à realidade aumentada. As simulações digitais permitiram que a equipe avaliasse a anatomia das pacientes antes de cada etapa do tratamento.
Implantes personalizados produzidos a partir das imagens médicas completaram o planejamento. Cada componente foi desenvolvido de acordo com as características anatômicas das crianças.
Separação de gêmeas mobilizou equipe de 20 nacionalidades
Casos de separação de gêmeas siamesas unidas pela cabeça figuram entre os mais raros da neurocirurgia pediátrica. A presença de tecidos e vasos compartilhados aumenta a complexidade das decisões médicas ao longo de todo o processo.
Por esse motivo, profissionais de diferentes especialidades participaram do projeto. Neurocirurgiões, anestesistas pediátricos, cirurgiões plásticos e outros integrantes da equipe atuaram de forma coordenada durante a preparação e a execução do trabalho.
O conjunto das intervenções ultrapassou 40 horas de centro cirúrgico. Os médicos dividiram o tratamento em fases para conduzir a separação de maneira gradual.
Cirurgia gera referências para novos procedimentos
Gabriel Mufarrej afirmou que o caso exigiu integração entre diferentes áreas da medicina e planejamento prolongado. Segundo o especialista, as tecnologias empregadas contribuíram para aumentar a segurança da intervenção.
Além da recuperação das crianças, a experiência produziu informações clínicas que poderão apoiar futuras equipes envolvidas em cirurgia de craniópagos. Registros desse tipo permanecem pouco frequentes na literatura médica mundial.
Os registros reunidos durante as quatro etapas do tratamento passam a integrar o conhecimento disponível sobre craniópagos, oferecendo referências para equipes envolvidas em novos casos dessa condição rara.
