Antidepressivo encontrado em tubarão abre nova frente para pesquisa de medicamentos

Antidepressivo encontrado em tubarão abre nova frente para pesquisa de medicamento
O registro de antidepressivo em tubarão ajuda cientistas a entender como resíduos farmacêuticos circulam pelos ecossistemas marinhos.
Pesquisadores da UFRJ encontraram antidepressivo em tubarão durante monitoramento de espécies ameaçadas na costa fluminense. (Foto: Canva)

Um antidepressivo em tubarão foi identificado no cérebro de espécies capturadas no litoral do Rio de Janeiro, revelando um percurso pouco observado dos medicamentos após o uso humano. Na quarta-feira (17/06), pesquisadores ligados à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) divulgaram resultados do Projeto EcoShark que detectaram sertralina em tubarões-martelo criticamente ameaçados de extinção.

Ao mesmo tempo, a descoberta ocorre em um período de crescimento do uso desses tratamentos. As vendas de antidepressivos e estabilizadores de humor aumentaram 11% em 2025, enquanto um levantamento nacional registrou alta de 18,6% na utilização de medicamentos voltados à saúde mental entre 2022 e 2024.

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Nesse estudo, pesquisadores analisaram tubarões capturados acidentalmente por pescadores parceiros nas regiões do Recreio, Barra da Tijuca e Copacabana. Como predadores de topo, esses animais acumulam substâncias presentes ao longo de toda a cadeia alimentar marinha.

O registro de antidepressivo em tubarão oferece aos pesquisadores uma oportunidade rara de acompanhar o comportamento de medicamentos fora do organismo humano. Os dados podem apoiar estudos voltados ao desenvolvimento de compostos com menor permanência ambiental e tecnologias mais eficientes para remover resíduos farmacêuticos do esgoto.

Antidepressivo em tubarão ajuda a rastrear o caminho dos medicamentos

Quando uma pessoa utiliza sertralina, parte do composto e de seus metabólitos segue para os sistemas de esgoto. Como as estações convencionais foram projetadas para remover matéria orgânica e microrganismos, muitos resíduos farmacêuticos permanecem na água tratada.

Além disso, segundo dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), cerca de 47% do esgoto gerado no estado do Rio de Janeiro recebe tratamento. Mesmo assim, compostos farmacêuticos podem alcançar ambientes costeiros por meio dos efluentes descartados no mar.

Com isso, a identificação da substância em espécies marinhas permite acompanhar quanto tempo esses compostos permanecem ativos após deixarem o organismo humano e quais caminhos percorrem até alcançar diferentes níveis da cadeia alimentar.

Antidepressivo em tubarão fornece dados para novos fármacos

Nesse contexto, pesquisadores identificaram sertralina no tecido cerebral dos animais. O resultado chamou atenção porque o medicamento atua em mecanismos ligados à serotonina.

Até o momento, os cientistas não identificaram evidências que permitam afirmar mudanças comportamentais nos tubarões. Ainda assim, a presença da substância no sistema nervoso demonstra sua capacidade de atravessar diferentes etapas do ambiente marinho até alcançar um grande predador.

Esse tipo de informação ajuda pesquisadores a identificar propriedades químicas relacionadas ao acúmulo de resíduos farmacêuticos e pode orientar estudos voltados à criação de moléculas com menor potencial de concentração nos ecossistemas.

Monitoramento marinho ajuda a testar o ciclo dos medicamentos

Por trás da descoberta, o monitoramento faz parte de uma investigação iniciada em 2018 pelo Projeto EcoShark, coordenado pela professora Mariana Batha Alonso, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ. A iniciativa estuda contaminantes emergentes em elasmobrânquios, grupo que inclui tubarões e raias.

Além de gerar conhecimento sobre espécies ameaçadas, os resultados podem contribuir para aprimorar estratégias de monitoramento ambiental utilizadas na identificação de poluentes farmacêuticos em ambientes costeiros.

Além disso, as informações coletadas pelo Projeto EcoShark podem ampliar a capacidade de identificar contaminantes emergentes em espécies marinhas ameaçadas. Dessa forma, pesquisadores passam a reunir dados que apoiam decisões sobre conservação, saneamento e monitoramento ambiental.

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