A Universidade Federal de Goiás (UFG) está usando materiais que iriam para o lixo para fabricar cadeiras de rodas recicladas e outros recursos destinados a pessoas com deficiência. As peças são produzidas sob medida e entregues gratuitamente aos usuários atendidos pelo projeto.
Parte das cadeiras nasce de tampinhas plásticas. Elas são trituradas e prensadas até formar placas resistentes usadas na estrutura dos dispositivos. Segundo a UFG, o laboratório já reaproveitou cerca de 240 mil tampinhas nesse processo.
O trabalho é realizado pelo Laboratório de Estudos Inventivos em Tecnologias Assistivas (Lab.EITA), criado em 2024. Até agora, a equipe desenvolveu 52 projetos diferentes e já entregou 280 produtos, entre cadeiras, próteses, suportes posturais e adaptações para atividades do dia a dia.
A gratuidade faz diferença porque alguns equipamentos disponíveis no mercado podem custar milhares de reais. Um andador semelhante a um modelo desenvolvido pelo laboratório, por exemplo, pode chegar a R$ 20 mil no comércio. Na UFG, a versão foi feita com impressão 3D e tubos reaproveitados de antenas de televisão.
Cadeiras de rodas recicladas usam milhares de tampinhas
Uma parceria de coleta ajuda a abastecer o laboratório com matéria-prima. O Instituto Unimed Goiânia informa que cerca de 4 mil tampinhas são necessárias para produzir peças de uma cadeira de rodas infantil destinada ao projeto.
As tampas passam por seleção, limpeza, trituração e fusão. O plástico reaproveitado forma componentes estruturais das cadeiras, enquanto outros materiais também entram na fabricação. Banners descartados, por exemplo, podem reforçar cintas de fixação.
As cadeiras são destinadas principalmente a crianças acompanhadas pelo laboratório e a famílias encaminhadas por parcerias. Antes da produção, profissionais avaliam as necessidades de cada usuário para adaptar medidas e características do dispositivo.
Projeto já atende pessoas de vários estados
O alcance do Lab.EITA saiu de Goiás. A UFG informa que cadeiras adaptadas já foram enviadas para pessoas em São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Bahia. Quatro unidades personalizadas também chegaram a crianças na África.
A procura, porém, já supera a capacidade do laboratório. Há mais de 200 pessoas na lista de espera. Entre os produtos com maior demanda está o parapódio, suporte que ajuda crianças a permanecerem em pé: 70 pessoas aguardavam pelo dispositivo na atualização divulgada pela universidade.
Hoje, essa limitação é um dos principais desafios do projeto. A prensa disponível não consegue produzir placas de plástico grandes o suficiente para todas as partes das cadeiras, e uma máquina maior custaria cerca de R$ 80 mil. Enquanto a estrutura não cresce, as cadeiras de rodas recicladas continuam sendo produzidas gratuitamente, mas em ritmo menor que a procura.