Conquistar uma vaga em medicina já seria suficiente para marcar a trajetória de Janilson Silva dos Anjos. Mas, no caso do jovem indígena da etnia Sateré-Mawé, foi a internet que garantiu que esse sonho pudesse realmente começar. Os vídeos que ele publicou nas redes sociais mobilizaram seguidores, ajudaram a custear sua mudança para Altamira (PA) e hoje incentivam milhares de pessoas a retomarem os estudos.
Natural da comunidade Aninga, no município amazonense de Boa Vista do Ramos, Janilson foi aprovado em 1º lugar no processo seletivo específico para indígenas do curso de medicina da Universidade Federal do Pará (UFPA). A conquista, porém, veio acompanhada de um novo desafio.
Pouco antes da mudança, um dos irmãos sofreu um acidente e parte das economias da família precisou ser destinada ao tratamento. Sem dinheiro para viajar até Altamira, o estudante viu a oportunidade ficar ameaçada. Foi então que amigos e pessoas que acompanharam seus vídeos nas redes sociais se mobilizaram para ajudá-lo a iniciar a graduação.
Redes sociais mudaram o rumo da história
O primeiro vídeo publicado por Janilson tinha um objetivo simples: explicar que ele havia conquistado a vaga, mas ainda não sabia como chegaria à universidade. A repercussão foi imediata.
A mobilização permitiu que ele deixasse o Amazonas levando apenas uma mochila e começasse a estudar medicina na UFPA. Desde então, o perfil passou a mostrar a rotina de um jovem amazônida dentro da universidade, conciliando aulas, estudos e os desafios da vida longe da comunidade onde cresceu.
Hoje, Janilson reúne mais de 270 mil seguidores em uma das plataformas onde produz conteúdo.
Da inspiração recebida ao incentivo para outras pessoas
Segundo o estudante, as mensagens que recebe diariamente mostram que a repercussão da própria história ultrapassou a conquista da vaga. Muitos seguidores contam que decidiram voltar a estudar ou desistiram de abandonar seus objetivos depois de acompanhar sua rotina.
Essa transformação começou muito antes da faculdade. Durante a infância, Janilson caminhava cerca de 8 quilômetros para chegar à escola. Sem condições de comprar materiais, muitas vezes dependia de cadernos doados por professores. Também ajudava os pais na agricultura familiar e na venda de banana, farinha e peixe para conseguir adquirir o próprio material escolar.
O desejo de cursar medicina nasceu após acompanhar o tratamento de um tio com câncer e pelas dificuldades que presenciou no acesso à saúde nas comunidades do interior da Amazônia, onde também perdeu um irmão para a malária.
Sonho agora é retribuir à Amazônia
Atualmente no segundo ano da graduação, Janilson mora em uma kitnet com a mãe, que é diabética e hipertensa. Além dos estudos, ele divide o tempo entre os cuidados com ela e as responsabilidades da casa.
Seu objetivo é atuar como médico humanista e ampliar o acesso à saúde para povos indígenas, ribeirinhos e outras comunidades tradicionais da Amazônia. Enquanto esse dia não chega, ele continua usando as redes sociais para mostrar que a educação pode transformar vidas — inclusive a de quem nasceu em uma das regiões mais isoladas do país.
A presença indígena nas universidades ainda enfrenta muitos desafios
A trajetória de Janilson também reflete uma mudança mais ampla no acesso de povos indígenas ao ensino superior brasileiro. Nos últimos anos, universidades federais ampliaram processos seletivos específicos e políticas de ações afirmativas voltadas a estudantes indígenas, permitindo que jovens de diferentes etnias ingressem em cursos antes pouco acessíveis, como Medicina.
Apesar desse avanço, o ingresso representa apenas uma parte do desafio. Para muitos estudantes, a permanência na universidade depende de apoio financeiro, moradia estudantil, alimentação e acesso a bolsas, especialmente quando precisam deixar suas comunidades e se mudar para outras cidades. Em regiões da Amazônia, as longas distâncias e o custo do deslocamento tornam essa transição ainda mais difícil.
Histórias como a de Janilson mostram que o acesso à universidade pode transformar trajetórias individuais, mas também evidenciam a importância de políticas públicas e redes de apoio para garantir que estudantes indígenas consigam concluir a graduação e retornar às suas comunidades com formação profissional.