Ceará terá 2º laboratório de CAR-T do país para produzir terapia mais perto dos pacientes

Ceará terá a segunda unidade modular de CAR-T do país. Estado lidera no Nordeste a estimativa combinada de leucemias e linfoma não Hodgkin em 2026.
Profissional de laboratório manipula tubos de ensaio durante atividade de pesquisa relacionada à terapia CAR-T no Ceará.
Ceará terá o segundo laboratório modular do país voltado ao desenvolvimento da terapia CAR-T contra o câncer. – (Foto: Freepik)

O Ceará terá o segundo laboratório modular do Brasil voltado ao desenvolvimento da terapia celular CAR-T contra o câncer. A estrutura será criada em parceria entre a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Ministério da Saúde e instituições cearenses e faz parte de uma estratégia para produzir as células mais perto dos centros onde os pacientes são atendidos.

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A escolha do estado ganha peso quando comparada à incidência dos cânceres inicialmente associados ao desenvolvimento da tecnologia. Um levantamento do Boa Notícia Brasil com dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) mostra que o Ceará tem estimativa de 1.450 novos casos de leucemias e linfoma não Hodgkin em 2026, o maior total combinado entre os nove estados do Nordeste.

O Ceará tem 920 casos estimados de leucemias e 530 de linfoma não Hodgkin.. A Bahia aparece logo depois, com 1.430 casos somados, enquanto Pernambuco tem 880. Os números não representam a quantidade de pessoas que poderão receber CAR-T, já que a indicação depende do subtipo da doença, da resposta a tratamentos anteriores e de outros critérios clínicos.

É nesse cenário que a CAR-T no Ceará passa a integrar uma estratégia de descentralização da produção. A assinatura do Memorando de Entendimento que prevê a criação da unidade ocorreu nesta terça-feira (29/09), em Fortaleza. Participam do projeto a Fiocruz, a Secretaria da Saúde do Ceará, a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (HU Brasil) e a Universidade Federal do Ceará (UFC).

Ceará lidera estimativa regional nos dois cânceres somados

O levantamento com dados estaduais do INCA mostra que o Ceará tem a maior estimativa combinada de leucemias e linfoma não Hodgkin do Nordeste em 2026.

O Ceará tem estimativa de 1.450 casos, enquanto a Bahia, segunda nesse recorte, soma 1.430. Pernambuco aparece em seguida, com 510 casos de leucemias e 370 de linfoma não Hodgkin, totalizando 880.

Fortaleza concentra parte importante desse cenário. O INCA estima que Fortaleza registre 270 novos casos de leucemias e 190 de linfoma não Hodgkin em 2026, totalizando 460 ocorrências nas duas categorias.

Os dados ajudam a dimensionar a presença dessas doenças no estado, mas não permitem estimar a demanda futura pela CAR-T. A CAR-T é indicada apenas para tipos e situações específicas de câncer hematológico.

CAR-T no Ceará terá produção mais perto dos pacientes

A CAR-T utiliza linfócitos T, células de defesa retiradas do próprio paciente. Em laboratório, essas células passam por uma modificação genética para reconhecer alvos específicos nas células cancerígenas. Depois, o laboratório multiplica essas células e as reinfunde no paciente.

A Fiocruz direcionará inicialmente o desenvolvimento da tecnologia para leucemias e linfomas. O projeto prevê trabalhar com a chamada duoCAR-T triespecífica, desenhada para reconhecer simultaneamente três antígenos associados ao câncer.

A proposta da estrutura modular é reduzir parte da distância entre a coleta dessas células, seu processamento e a reinfusão. Segundo o Ministério da Saúde, a estratégia busca diminuir custos logísticos e o intervalo entre essas etapas.

A unidade cearense será a segunda do modelo. A primeira unidade entrou em operação em maio de 2026 no Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos), da Fiocruz, no Rio de Janeiro. O modelo também deverá chegar a outras regiões do país, mas o governo ainda não definiu quais estados receberão as próximas unidades.

Assinatura do memorando no CE
Assinatura do Memorando de Entendimento, em Fortaleza (Foto: João Risi / MS)

Ceará já processa células usadas em transplantes

A chegada do laboratório de CAR-T Cell no Ceará também encontra no estado uma estrutura anterior de manipulação de células para tratamentos hematológicos.

O Centro de Hematologia e Hemoterapia do Ceará (Hemoce) já realiza coleta, processamento e criopreservação de células progenitoras usadas em transplantes de medula óssea. Depois da coleta, o material passa pelo Centro de Processamento Celular, onde pode ser processado, congelado e armazenado até a utilização pelo serviço transplantador.

O Hemoce também integra a rede de apoio ao transplante de medula e mantém cerca de 200 mil pessoas cadastradas no Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome), segundo a própria instituição. É o maior contingente informado pelo hemocentro entre os estados das regiões Norte e Nordeste.

Essa experiência não significa que a estrutura atual já produza CAR-T. São processos diferentes. Ela mostra, porém, que o Ceará já dispõe de serviços ligados à coleta, conservação e processamento de células humanas antes da implantação do novo laboratório.

Laboratório ainda precisa sair do papel

A assinatura realizada em Fortaleza é uma etapa inicial. O novo laboratório ainda será implantado, e a terapia desenvolvida dentro dessa estratégia não está disponível rotineiramente para pacientes do SUS no Ceará.

O projeto também prevê estudos clínicos no Brasil, em parceria com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), e a produção nacional de componentes empregados na modificação genética das células.

Por enquanto, o dado concreto é que o estado com a maior estimativa combinada de leucemias e linfoma não Hodgkin do Nordeste em 2026 será o segundo do país a receber a estrutura modular. A futura chegada da CAR-T aos pacientes dependerá da implantação do laboratório, dos estudos clínicos e das etapas regulatórias necessárias.

Foto de Monique de Carvalho

Monique de Carvalho

Jornalista formada em Comunicação Social pela Fanor, com mais de 15 anos de experiência em marketing de conteúdo, produção digital, storytelling e comunicação de impacto. Já contribuiu para os portais Razões para Acreditar e Só Notícia Boa.

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