Peças que acompanharam a infância de David Aguilar acabaram se transformando em uma prótese de LEGO funcional e deram início a uma sequência de invenções. O jovem de Andorra construiu um braço para si, entrou para o Guinness World Records e, depois, passou a adaptar a experiência para ajudar outras crianças.
David nasceu com síndrome de Poland, uma condição congênita que, no caso dele, afetou o desenvolvimento do braço e do músculo peitoral direitos. Ainda criança, começou a experimentar formas de encaixar as peças de LEGO no próprio braço.
O salto aconteceu em 2017, quando ele construiu o MK-I com peças de um helicóptero LEGO Technic. O braço tinha uma articulação móvel no cotovelo e uma pinça acionada pelo movimento do próprio membro. A criação foi reconhecida como a primeira prótese funcional de LEGO pelo Guinness World Records.
Mas o recorde não encerrou a experiência. David continuou construindo novas versões, acrescentando recursos e buscando mais conforto e movimento. Anos depois, essa evolução saiu do próprio braço e chegou a crianças que precisavam de adaptações diferentes.
Prótese de LEGO ganhou motores e cinco dedos móveis
Os primeiros modelos funcionavam de forma mecânica, mas David foi tornando os projetos mais sofisticados. Versões posteriores ganharam motores e cinco dedos controlados por pequenos movimentos do braço, reduzindo o esforço necessário para movimentar a prótese.
A evolução também acompanhou a formação escolhida pelo inventor. A Organização Mundial da Propriedade Intelectual registrou, em 2022, que David havia criado cinco modelos de próteses e direcionava seus estudos e projetos para dispositivos mais acessíveis.
O objetivo, porém, não era simplesmente substituir próteses convencionais por blocos de montar. Em entrevista, David explicou que cada modelo exige personalização e que as peças de LEGO nem sempre oferecem a opção mais barata para produção em grande escala. Ele usa o conhecimento adquirido com os protótipos para desenvolver soluções adaptáveis, funcionais e acessíveis.
Prótese de LEGO também ajudou criança a pegar objetos e usar tablet
Um dos desdobramentos mais concretos ocorreu em 2021. Depois de conhecer a história de David, a família de Beknur Zhanibekuly, então com 8 anos, entrou em contato com ele. A criança havia nascido com os braços não desenvolvidos e tinha dificuldade para encontrar próteses que funcionassem para suas necessidades.
David criou dois modelos personalizados. Um deles tinha uma pinça controlada por um cabo ligado ao pé. O outro, desenvolvido com a participação de seu pai, Ferran Aguilar, ganhou uma ponta capaz de operar telas sensíveis ao toque. Com as adaptações, Beknur conseguiu pegar pequenos objetos e usar um tablet.
As peças usadas no braço controlado pelo pé custaram cerca de € 15, segundo o Guinness. O projeto ainda rendeu a David e Beknur outros dois recordes: o primeiro braço protético funcional de LEGO controlado pelo pé e o primeiro com uma caneta própria para telas. Assim, a prótese de LEGO que começou como uma experiência pessoal acabou servindo também como laboratório para dispositivos feitos de acordo com as necessidades de outras pessoas.