Mulheres ribeirinhas da comunidade São Domingos, na Floresta Nacional do Tapajós, mostraram, na sexta-feira (03/07), como um conhecimento transmitido entre gerações passou a sustentar um empreendimento que produz óleos, sabonetes, cremes e repelentes com matérias-primas amazônicas. A atividade amplia a renda das famílias e prepara jovens para assumir o negócio.
O grupo reúne 16 integrantes e nasceu em 2016 a partir da iniciativa de três irmãs. O óleo de andiroba, antes produzido apenas para consumo doméstico, passou a abastecer uma cadeia produtiva voltada aos mercados de cosméticos e produtos medicinais.
O trabalho segue o ritmo da floresta. A produção depende da coleta das sementes maduras e de um processo manual que leva cerca de três meses entre higienização, cozimento, secagem, preparo da massa e decantação do óleo.
Além da renda complementar, a experiência abriu espaço para que filhas das fundadoras assumam novas funções ligadas à gestão, comunicação e qualificação profissional, mantendo a atividade dentro da própria comunidade.
Mulheres ribeirinhas unem tradição familiar e formação acadêmica
Silvia Gabrielly, de 23 anos, representa essa nova etapa. Filha de Marileide da Silva Monteiro, ela atua como agente ambiental no Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e administra as redes sociais das Amélias da Amazônia.
A graduação em tecnologia ambiental integra o plano de ampliar conhecimentos sobre produção, gestão e cultivo das espécies utilizadas nos biocosméticos. A expectativa é incorporar novas técnicas sem abandonar os métodos tradicionais aprendidos com as gerações anteriores.
A transmissão dos saberes permanece dentro da família. O conhecimento para extrair o óleo de andiroba foi herdado dos avós e dos pais das fundadoras, preservando uma prática construída ao longo de décadas na comunidade.
Bioeconomia na Amazônia conecta comunidades, universidade e empresas
Os óleos produzidos pelas Amélias da Amazônia abastecem a Mahá Biocosméticos, empresa criada pelas farmacêuticas Melissa Karen Lage e Bruna de Souza durante a graduação na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa).
A parceria substituiu ingredientes externos por ativos amazônicos, como andiroba e castanha-do-pará, fortalecendo cadeias produtivas locais e criando uma relação permanente entre pesquisa científica e conhecimento tradicional.
A cooperação também inclui capacitação para aproveitamento dos resíduos da andiroba, permitindo maior utilização da matéria-prima produzida pelas famílias ribeirinhas.
Mulheres ribeirinhas: Empreendedorismo feminino na Amazônia amplia oportunidades na floresta
O laboratório da Mahá funciona na Oka Hub, incubadora instalada em Belterra que reúne atualmente 11 negócios ligados à bioeconomia e aproxima empreendedores de instituições como a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), o Sebrae e a Ufopa.
Segundo o diretor técnico do Sebrae Nacional, Bruno Quick, os conhecimentos acumulados por povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos passam a alcançar novas aplicações quando recebem apoio para pesquisa, inovação e desenvolvimento tecnológico.
A trajetória das Amélias da Amazônia demonstra que a permanência das jovens na floresta pode caminhar junto com ensino superior, ciência e empreendedorismo. O resultado fortalece uma atividade iniciada por mulheres da comunidade e mantém a geração de renda vinculada aos saberes tradicionais da região.
