Depois de cuidar do avô durante a pandemia, o empreendedor brasileiro Basilio Carvalho criou uma tecnologia capaz de fazer companhia, acompanhar a rotina e avisar familiares quando identifica mudanças de comportamento de pessoas na terceira idade. Batizada de Anna, a IA para idosos está em fase de testes e foi desenvolvida para pessoas que vivem sozinhas ou passam parte do dia sem companhia. O lançamento está previsto para o segundo semestre de 2027.
A ideia surgiu da dificuldade de acompanhar um familiar idoso à distância. Basilio imaginou um “neto” disponível 24 horas por dia para lembrar horários de medicamentos, perguntar como foi a noite e manter contato frequente com o usuário, mesmo quando os parentes não conseguem estar presentes.
Diferentemente dos assistentes virtuais tradicionais, a Anna toma a iniciativa das conversas ao longo do dia. Em vez de funcionar apenas como um chat, o sistema pergunta, por exemplo, quantas vezes a pessoa foi ao banheiro, se está com frio ou fome, e registra essas informações para formar um histórico dos hábitos diários.
Segundo o empreendedor, todos os dados permanecem criptografados no próprio equipamento, sem processamento em nuvem. Assim, familiares e profissionais de saúde podem acompanhar informações do cotidiano que a Anna registra continuamente, enquanto o sistema preserva a privacidade do usuário.
IA para idosos ganhou forma após encontro em evento de tecnologia
A ideia começou a ganhar forma durante o Web Summit Lisboa, em 2025. No evento, Basilio apresentou a Tesatad, startup especializada em tecnologias para o cuidado de idosos, e conversou com o proprietário de um asilo que relatou dificuldades para manter equipes diante da alta rotatividade de funcionários.
Na semana seguinte, durante uma viagem à China, o empreendedor encontrou um equipamento utilizado como assistente virtual em hotéis e restaurantes. Ele comprou uma unidade para desenvolver a primeira versão da Anna e iniciar os testes em instituições de longa permanência para idosos (ILPIs).
Os resultados dessa etapa mudaram os rumos do projeto. Em vez das instituições, a startup decidiu direcionar o projeto para idosos que permanecem em suas próprias casas e preservam maior autonomia.
Tecnologia registra informações da rotina para apoiar o cuidado
O hardware é fabricado em Shenzhen, na China, enquanto o software foi desenvolvido pela Tesatad. O equipamento tem tamanho semelhante ao de um tablet, reúne câmera e microfone e exibe apenas o avatar responsável pela interação.
A inteligência artificial foi treinada especificamente para interagir com pessoas idosas. Em vez de esperar comandos, conduz diálogos ao longo do dia e registra informações sobre alimentação, sono, bem-estar e outros hábitos cotidianos.
Segundo Basilio, esse acompanhamento contínuo pode fornecer aos profissionais de saúde dados que dificilmente eles coletariam de forma regular.
Anna passará por testes em quatro países antes da chegada ao mercado
A Anna ainda está na fase de protótipo. Vinte unidades estão em produção para os primeiros testes oficiais, que acontecerão no Brasil, Portugal, Irlanda e Ilha de Man durante quatro meses.
Nas primeiras oito semanas, enfermeiras utilizarão a IA para fazer o acompanhamento de idosos. Em seguida, os próprios usuários passarão a operar o dispositivo de forma independente. Os testes servirão para identificar ajustes antes do lançamento comercial.
Até agora, Basilio afirma ter investido cerca de US$ 200 mil (aproximadamente R$ 1 milhão) no desenvolvimento da Anna. Paralelamente, a startup negocia uma rodada pré-seed de US$ 1,4 milhão para produzir 1,4 mil unidades e ampliar a equipe.
A expectativa é lançar a Anna no segundo semestre de 2027 por assinatura mensal de R$ 479. Até lá, o dispositivo ainda precisa concluir os testes e obter regulamentação da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), já que utiliza um chip para realizar chamadas.
