A aprovação de um novo remédio para enxaqueca pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) abre uma nova etapa no tratamento da doença no Brasil. O medicamento Nurtec ODT, da Pfizer, foi autorizado para uso em adultos tanto na prevenção quanto no tratamento das crises agudas, ampliando as alternativas para pacientes que convivem com dores recorrentes e incapacitantes.
O novo medicamento para enxaqueca é à base de rimegepant, molécula da classe dos antagonistas do CGRP, proteína ligada à inflamação e à transmissão da dor durante as crises. A aprovação foi publicada nesta segunda-feira (25/05) no Diário Oficial da União.
Mais do que um avanço regulatório, a chegada da medicação representa uma mudança prática para milhões de brasileiros afetados pela doença. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a enxaqueca uma das doenças neurológicas mais incapacitantes do mundo, especialmente entre pessoas em idade produtiva.
A doença interfere na produtividade, no sono, na concentração, na rotina familiar e até na capacidade de trabalhar durante as crises. Muitas pessoas precisam interromper compromissos, estudos e atividades profissionais por causa da dor latejante, da sensibilidade à luz e do enjoo provocados pelos episódios mais intensos.
Pacientes com crises frequentes também podem enfrentar desgaste emocional e perda de qualidade de vida ao longo dos anos, principalmente quando não conseguem controlar os sintomas com tratamentos convencionais. Segundo estudos internacionais, a enxaqueca está entre as principais causas de incapacidade no mundo e gera impacto direto na produtividade e nos afastamentos do trabalho.
Outro diferencial do Nurtec ODT é o formato orodispersível. O comprimido dissolve na boca sem necessidade de água, característica relevante para pacientes que enfrentam crises fortes de enxaqueca acompanhadas de vômitos ou hipersensibilidade. Durante episódios intensos, alguns pacientes têm dificuldade até para ingerir líquidos, o que pode dificultar o uso de medicamentos tradicionais.
Tratamento une prevenção e controle das crises
Segundo a neurologista Sara Casagrande, membro da Sociedade Brasileira de Cefaleias e da International Headache Society, um dos principais avanços do novo remédio para enxaqueca é reunir prevenção e tratamento agudo em uma única medicação oral.
Hoje, parte dos bloqueadores de CGRP disponíveis no Brasil é aplicada por meio de injeções. A nova opção de tratamento para enxaqueca amplia as alternativas para pacientes que buscam terapias menos invasivas e mais práticas no dia a dia.
O CGRP é uma proteína ligada aos processos inflamatórios e à transmissão da dor no cérebro durante as crises. Os chamados “gepants”, classe do rimegepant, atuam justamente bloqueando essa ação.
Diferentemente de medicamentos tradicionais usados apenas para aliviar a dor, os “gepants” foram desenvolvidos especificamente para agir nos mecanismos ligados à enxaqueca.
A especialista afirma ainda que o medicamento não provoca vasoconstrição, estreitamento dos vasos sanguíneos associado a alguns remédios usados tradicionalmente contra a enxaqueca. Isso pode ampliar as possibilidades terapêuticas para pacientes com risco cardiovascular.
Parte dos pacientes não consegue controlar adequadamente as crises apenas com analgésicos tradicionais, especialmente em casos de enxaqueca recorrente. Por isso, medicamentos desenvolvidos especificamente para a doença vêm ganhando espaço entre especialistas.
O que mostram os estudos sobre o novo remédio para enxaqueca
Os resultados clínicos divulgados até agora reforçam o potencial do medicamento.
Um estudo de fase 3 publicado na revista científica The Lancet avaliou adultos com histórico de enxaqueca moderada ou grave tratados com dose única de 75 mg de rimegepant.
Após duas horas, 21% dos participantes tratados ficaram sem dor, contra 11% no grupo placebo.
Os pesquisadores também observaram melhora do sintoma considerado mais incômodo pelos pacientes, como náusea, sensibilidade à luz ou sensibilidade ao som, em 35% dos casos tratados com o medicamento, frente a 27% no grupo placebo.
Os eventos adversos relatados ocorreram em baixa frequência. Náusea e infecção urinária foram os mais registrados, sem relato de eventos graves relacionados ao tratamento durante o estudo.
Por que os novos tratamentos para enxaqueca estão ganhando espaço
O rimegepant faz parte dos chamados “gepants”, classe de medicamentos desenvolvida especificamente para combater a enxaqueca.
Nos últimos anos, tratamentos específicos para a doença passaram a ganhar espaço internacionalmente como alternativa ao uso frequente de analgésicos genéricos, associados em alguns casos ao agravamento das crises quando utilizados em excesso.
A aprovação da Anvisa aproxima o mercado brasileiro das terapias mais utilizadas internacionalmente para tratar a doença. Antes da autorização nacional, pacientes brasileiros já importavam o medicamento por conta própria, normalmente com custos elevados.
A chegada do medicamento amplia as opções para pacientes que não conseguem controlar as crises com tratamentos convencionais.
A autorização da Anvisa permite a comercialização do medicamento no país, mas o novo remédio para crise de enxaqueca ainda depende da definição de preço e de etapas comerciais antes de chegar às farmácias brasileiras.
As apresentações aprovadas incluem cartelas com 2, 8 e 16 comprimidos de 75 mg. O registro do medicamento é válido até maio de 2036.
A chegada do medicamento ao mercado brasileiro pode ampliar o acesso a tratamentos mais específicos para pacientes que convivem há anos com crises incapacitantes e poucas alternativas eficazes.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou orientação de profissionais de saúde. Em caso de dúvidas ou sintomas, procure um médico ou profissional habilitado.