O Brasil nunca teve tantas casas conectadas à internet. Ainda assim, um dado da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) mostrou um movimento na direção oposta entre os mais jovens. Pela primeira vez, caiu a posse de celulares entre crianças de 10 a 13 anos.
O percentual passou de 56,7% para 55,2% em um ano. Embora a redução seja pequena, ela representa a primeira queda registrada pela pesquisa e sugere uma mudança na forma como muitas famílias definem o momento de entregar um aparelho próprio aos filhos.
O levantamento também revelou uma mudança importante nas justificativas dos responsáveis. A preocupação com privacidade e segurança passou a ser o principal motivo citado, com 32% das respostas, superando fatores como preço e falta de necessidade.
Segurança passa a influenciar a decisão das famílias
Para Rodrigo Nejm, psicólogo e especialista em educação digital do Instituto Alana, o resultado mostra que os impactos do ambiente digital deixaram de ser uma preocupação restrita a especialistas e passaram a influenciar as decisões do cotidiano das famílias.
Segundo ele, pais e educadores observam cada vez mais os efeitos do uso precoce e sem supervisão dos celulares. Entre os riscos citados estão dificuldades de socialização, cyberbullying, exposição à violência, acesso precoce à pornografia, grupos de ódio e jogos de azar.
Na avaliação do especialista, o debate também ganhou força em outros países. França, Espanha e Reino Unido passaram a colocar a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital no centro das discussões públicas, reforçando uma tendência internacional de ampliar os mecanismos de segurança para esse público.
Uso da tecnologia muda sem afastar crianças da internet
Os especialistas ressaltam que a redução na posse de aparelhos não significa rejeição à tecnologia. A proposta, segundo Nejm, é garantir que crianças utilizem ambientes digitais mais seguros e adequados à idade.
A advogada Patricia Peck, especialista em Direitos Digitais, avalia que a inclusão digital deixou de ser medida apenas pela posse de um celular. Para ela, o acesso precisa considerar segurança, privacidade e uso responsável.
Essa nova demanda das famílias também começa a influenciar o desenvolvimento de celulares, aplicativos e plataformas digitais. Fabricantes e empresas do setor passam a investir em recursos que reforcem a proteção de crianças desde o primeiro acesso.
Pressão das famílias pode mudar produtos e aplicativos
Segundo Patricia Peck, dispositivos com controles parentais mais simples, verificação de idade e mecanismos claros de supervisão devem aparecer com mais frequência nos próximos anos.
Ela destaca que a segurança não deve depender apenas do conhecimento técnico dos pais. Na avaliação da especialista, essas proteções precisam fazer parte do próprio desenvolvimento dos produtos e serviços digitais.
Além das iniciativas da indústria, o ECA Digital reforça princípios de proteção para crianças e adolescentes no ambiente digital, como o safety by design e o privacy by design, que incentivam a incorporação de mecanismos de segurança desde a criação de plataformas e aplicativos. A expectativa é que a inteligência artificial também contribua para identificar conteúdos inadequados, combater fraudes e adaptar experiências conforme a faixa etária dos usuários, tornando o ambiente digital mais seguro para crianças e adolescentes.
