Um paciente com glaucoma de ângulo aberto tornou-se o primeiro ser humano a receber uma terapia de reprogramação celular, tecnologia que busca restaurar parte das funções de células envelhecidas sem modificar a sequência do DNA do paciente. O procedimento marca a chegada dessa estratégia aos testes clínicos após anos de pesquisas em laboratório e em animais.
A empresa americana Life Biosciences, de Boston (EUA), aplicou a terapia em junho e divulgou o procedimento nesta quinta-feira (16/07). O tratamento integra um ensaio clínico autorizado pela Food and Drug Administration (FDA). Nesta primeira fase, os pesquisadores testam a segurança da terapia genética ER-100 e acompanham seus possíveis efeitos sobre a visão.
O ensaio clínico marca a primeira oportunidade de observar essa tecnologia em seres humanos após anos de resultados promissores em animais. Nesta etapa, os pesquisadores acompanharão os participantes para avaliar a segurança da terapia e seus possíveis efeitos sobre a visão, antes que estudos maiores possam investigar outras aplicações da técnica.
Por que a reprogramação celular em humanos começou pelo glaucoma
Os pesquisadores escolheram o glaucoma porque o nervo óptico oferece um ambiente mais controlado para avaliar uma tecnologia ainda inédita em humanos. Caso ocorram efeitos inesperados, os riscos tendem a permanecer mais limitados do que em órgãos como cérebro, coração ou fígado.
O estudo também começa de forma bastante restrita. Apenas 18 voluntários participarão da primeira fase: 12 com glaucoma de ângulo aberto e outros seis com danos ao nervo óptico provocados pela neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (NAION). Todos serão acompanhados por pelo menos cinco anos.
Esse formato é comum em estudos clínicos iniciais, cujo objetivo principal é confirmar a segurança da tecnologia antes que ela seja testada em grupos maiores de pacientes.
Tecnologia nasceu de uma descoberta premiada com o Nobel
A estratégia utilizada pela Life Biosciences tem origem nas pesquisas do cientista japonês Shinya Yamanaka, vencedor do Prêmio Nobel de Medicina de 2012. Em 2006, ele demonstrou que células adultas poderiam ser reprogramadas por meio da ativação de genes específicos.
A terapia ER-100 utiliza uma versão parcial desse processo. Um vírus modificado leva às células três genes capazes de estimular características associadas ao rejuvenescimento celular, mas sem apagar a identidade da célula original.
Outro diferencial é o controle da terapia. Os genes permanecem ativos apenas enquanto o paciente utiliza um antibiótico específico. Se o medicamento for interrompido, essa atividade também é desligada.
Antes da autorização para os testes em humanos, estudos conduzidos por pesquisadores ligados à Life Biosciences mostraram regeneração de neurônios e melhora da visão em modelos animais de glaucoma, resultados que motivaram o avanço para a fase clínica.
Próximos anos dirão se a terapia é realmente segura
Especialistas ressaltam que ainda é cedo para saber se a reprogramação celular em humanos poderá se tornar um tratamento para doenças relacionadas ao envelhecimento. Uma das principais preocupações é impedir que as células reprogramadas passem a crescer de forma descontrolada, aumentando o risco de tumores.
Mesmo que o estudo confirme a segurança da terapia, os pesquisadores ainda precisarão avançar para novas fases de pesquisa. Nessas etapas, eles vão avaliar a eficácia do tratamento e verificar se a tecnologia poderá ser aplicada no futuro contra outras doenças, como degeneração macular, enfermidades neurodegenerativas e algumas condições cardiovasculares. A aplicação no primeiro paciente marca apenas o início dessa investigação, e os resultados definitivos ainda devem levar anos.