Uma pesquisa contra psoríase desenvolvida por cientistas da Universidade de São Paulo (USP) começou a abrir uma nova frente de estudos. A tecnologia criada para tratar doenças de pele agora também está sendo adaptada para pesquisas com vacinas de mRNA contra o câncer, ampliando o alcance de uma inovação que nasceu na dermatologia.
O trabalho teve início no laboratório NanoGeneSkin, em Ribeirão Preto. A equipe buscava uma forma mais eficiente de levar moléculas terapêuticas até as células afetadas pela psoríase e pelo vitiligo, tornando os tratamentos mais precisos e direcionados.
À medida que os resultados apareceram, os pesquisadores perceberam que o mesmo sistema de transporte poderia ser útil em outra área da medicina. As vacinas de mRNA também dependem de moléculas que chegam intactas às células. Por isso, os pesquisadores passaram a aplicar a plataforma nesse tipo de estudo.
Da pele às vacinas: pesquisa também avança com mRNA
O que tornou esse avanço possível foi o desenvolvimento de nanopartículas que funcionam como pequenos veículos de transporte. Elas protegem as moléculas de RNA e ajudam esse material a chegar exatamente onde precisa agir, superando a barreira natural da pele.
Em vez de agir em todo o organismo, a estratégia permite bloquear apenas os genes ligados ao processo inflamatório. A expectativa é aumentar a precisão das terapias e reduzir efeitos indesejados em outras partes do corpo.
Os estudos mostraram que a plataforma conseguiu cumprir essa função em experimentos com células cultivadas em laboratório e também em animais com lesões semelhantes às observadas na psoríase e no vitiligo. Os resultados foram apresentados durante a Semana da Fapesp, em Londres.
Tecnologia também passa a apoiar pesquisas com vacinas
Depois dos resultados obtidos nas doenças dermatológicas, a equipe começou a adaptar a mesma estrutura para transportar moléculas de mRNA. Nesse caso, o objetivo é fazer com que as células produzam proteínas específicas, mecanismo utilizado em pesquisas de vacinas.
Segundo a coordenadora do NanoGeneSkin, Maria Vitória Bentley, o grupo reúne duas décadas de estudos sobre nanopartículas capazes de transportar medicamentos e moléculas de RNA. Esse conhecimento permitiu ampliar o alcance da plataforma para além da dermatologia.
Além das pesquisas sobre psoríase, vitiligo e cicatrização de feridas, os cientistas investigam como essa tecnologia poderá contribuir para o desenvolvimento de vacinas experimentais contra o câncer. Essa aplicação ainda depende de novas etapas de pesquisa e das avaliações regulatórias, mas revela como uma solução criada para tratar doenças de pele também pode beneficiar outras áreas da medicina.
Especialista vê potencial para tratamentos mais eficazes
Para a dermatologista Natasha Crepaldi, os sistemas nanotecnológicos representam um avanço importante porque permitem fazer o tratamento chegar exatamente ao local onde ele precisa agir.
Segundo a especialista, essa estratégia pode aumentar a eficácia das terapias e reduzir efeitos adversos, principalmente em doenças que exigem tratamento contínuo. Ela ressalta, porém, que os estudos ainda precisam avançar antes que a tecnologia possa ser utilizada na prática clínica.
Mesmo sem previsão de chegar aos pacientes, o estudo já amplia o alcance de uma inovação criada para tratar psoríase e vitiligo. Agora, a plataforma também poderá contribuir para o desenvolvimento de futuras vacinas baseadas em mRNA, mostrando como uma única descoberta pode abrir novas possibilidades para diferentes áreas da medicina.