Uma observação feita no quintal de casa levou um estudante japonês de apenas 10 anos a apresentar um trabalho em um dos principais encontros mundiais de entomologia. Ao tentar descobrir se os insetos que criava ainda se lembravam dele após a metamorfose, Jo Nagai transformou a curiosidade em uma pesquisa sobre borboletas apresentada no Congresso Internacional de Entomologia, realizado no Japão.
O trabalho começou quando Jo tinha apenas oito anos. Em dois anos, ele reuniu observações, montou experimentos, escreveu um relatório de 33 páginas e apresentou o estudo durante uma sessão voltada a estudantes do ensino fundamental e médio.
Embora os resultados do experimento ainda aguardem publicação em uma revista científica com revisão por pares, a pesquisa chamou atenção por ter sido desenvolvida por uma criança com orientação de uma pesquisadora universitária.
Menino pesquisa borboletas com apoio de uma cientista
Em busca de respostas para sua dúvida, Jo encontrou um estudo da entomologista Martha Weiss, da Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos. Em vez de apenas consultar a pesquisa, escreveu uma carta de quatro páginas perguntando como poderia adaptar aquele experimento às borboletas que criava em casa.
A pesquisadora respondeu e passou a orientar o estudante à distância. Ao longo dos meses, os dois trocaram mensagens sobre hipóteses, metodologia e maneiras de adaptar o experimento aos recursos disponíveis na residência da família.
Essa parceria permitiu que Jo desenvolvesse a pesquisa utilizando procedimentos como a comparação entre grupos e o registro sistemático das observações ao longo dos testes.
Laboratório improvisado permitiu realizar o experimento
Sem acesso aos equipamentos encontrados em universidades, Jo montou um pequeno laboratório dentro de casa. Para realizar os testes, utilizou um aparelho doméstico de terapia muscular que emitia impulsos leves enquanto as lagartas eram expostas ao aroma de óleo essencial de lavanda.
Ao mesmo tempo, manteve um grupo de controle formado por lagartas que não passaram pelo treinamento. Antes de cada sessão, o próprio estudante testava a intensidade do aparelho em seu braço para garantir que o estímulo permanecesse em um nível seguro.
Depois da metamorfose, as borboletas foram colocadas em um tubo em formato de Y. Segundo o relatório produzido por Jo, aquelas que participaram do treinamento evitaram com maior frequência o caminho com cheiro de lavanda quando comparadas ao grupo de controle.
Pesquisa ganhou espaço em congresso internacional
Jo também repetiu o experimento com descendentes das borboletas utilizadas nos testes. Os resultados observados sugeriram que esse comportamento poderia aparecer nas gerações seguintes, hipótese que ainda depende de validação por meio da publicação em um periódico científico revisado por pares.
O Congresso Internacional de Entomologia é um dos principais eventos científicos da área e reúne pesquisadores de diversos países para apresentar estudos sobre insetos. Na edição realizada no Japão, o evento também reservou uma sessão para trabalhos desenvolvidos por estudantes do ensino fundamental e médio. Martha Weiss viajou ao país para acompanhar pessoalmente a apresentação de Jo.
Jo afirma que pretende seguir carreira como veterinário, e não como entomologista. Ainda assim, a trajetória do menino já produziu um resultado concreto: uma dúvida surgida no quintal de casa se transformou em um trabalho apresentado diante de pesquisadores de diferentes partes do mundo.