Fiocruz patenteia composto contra malária resistente em meio a alerta sobre falha de remédios

A Fiocruz recebeu patente nos Estados Unidos para um composto voltado ao tratamento contra malária resistente em meio ao avanço da perda de eficácia dos medicamentos usados atualmente contra a doença.
Pesquisadora da Fiocruz analisa composto para tratamento contra malária resistente em laboratório
Fiocruz recebeu patente nos EUA para composto voltado ao tratamento contra malária resistente. (Foto: Alex Pazuello/Secom)

A Fiocruz recebeu nos Estados Unidos a patente de uma nova alternativa terapêutica contra malária resistente em meio ao avanço da resistência do parasita aos medicamentos usados atualmente no tratamento da doença. O cenário preocupa autoridades de saúde porque aumenta o risco de falhas terapêuticas, complicações e mortes em regiões que ainda dependem de remédios acessíveis para controlar surtos.

A descoberta envolve o composto DAQ e ganha relevância diante do alerta internacional sobre a perda gradual de eficácia dos medicamentos antimaláricos, considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) uma das principais ameaças ao controle global da doença.

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Resistência da malária preocupa autoridades de saúde

A patente foi concedida pelo United States Patent and Trademark Office (USPTO) e reúne pesquisadores do Instituto René Rachou, unidade da Fiocruz em Minas Gerais. O foco da tecnologia está no combate ao Plasmodium falciparum, espécie responsável pelas formas mais graves e letais da malária.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a resistência antimalárica uma das maiores ameaças atuais ao combate global da doença, especialmente em regiões da África e do Sudeste Asiático, onde a dependência de medicamentos acessíveis aumenta o risco de crises sanitárias.

Embora a malária ainda tenha tratamentos eficazes, o parasita continua evoluindo, cenário que já provocou crises terapêuticas em diferentes partes do mundo.

O problema preocupa especialmente países da África, Ásia e América Latina, onde a doença ainda depende de medicamentos acessíveis para evitar surtos e mortes.

No Brasil, a maior parte dos casos se concentra na Amazônia Legal, região onde a malária afeta principalmente populações com acesso mais limitado aos serviços de saúde.

Segundo os pesquisadores, o diferencial do DAQ está justamente na capacidade de atuar mesmo diante das mutações desenvolvidas pelo parasita.

“Essa molécula já tinha sido descrita como promissora, mas acabou sendo deixada de lado. O nosso grupo retomou esse estudo e mostrou um mecanismo único de superar mecanismos de resistência desenvolvidos pelo parasito, ao identificar uma característica estrutural decisiva: a presença de uma ligação tripla na cadeia química”, afirmou Wilian Cortopassi, o pesquisador colaborador da Fiocruz Wilian Cortopassi.

Os pesquisadores revisitaram compostos já conhecidos utilizando ferramentas mais recentes da química e da biologia molecular.

Essa estratégia para tratamento contra malária resistente reduz etapas iniciais da pesquisa e pode acelerar o desenvolvimento de novos medicamentos, especialmente em doenças negligenciadas, área que historicamente recebe menos investimentos privados em pesquisa farmacêutica.

O DAQ atua de forma semelhante à cloroquina, medicamento historicamente utilizado no combate à malária. Durante a digestão da hemoglobina humana, o parasita produz substâncias tóxicas e cria mecanismos para neutralizá-las. O composto antimalárico bloqueia esse processo de defesa, levando à morte do microrganismo.

Os estudos apontaram ação rápida nas fases iniciais da infecção e eficácia tanto contra cepas sensíveis quanto resistentes do Plasmodium falciparum.

Os pesquisadores também identificaram resultados considerados promissores contra o Plasmodium vivax, responsável pela maior parte dos casos registrados no Brasil.

“Nós vimos que a molécula funcionou tanto para falciparum quanto para vivax, o que é extremamente relevante”, afirmou a pesquisadora Anna Caroline Aguiar, que participou dos experimentos realizados durante o mestrado e doutorado sob orientação de Antoniana Krettli.

Para os pesquisadores, desenvolver novos antimaláricos antes da perda de eficácia dos medicamentos atuais pode evitar futuras limitações terapêuticas.

Como o composto DAQ age contra cepas resistentes

Outro fator que ampliou o interesse em torno do composto foi o potencial de baixo custo da molécula.

A malária afeta principalmente países de baixa e média renda, onde tratamentos caros costumam enfrentar barreiras de distribuição e acesso. Por isso, o desenvolvimento de alternativas terapêuticas é tratado como questão estratégica em saúde pública global.

“A recente aprovação da patente do método de tratamento contra parasitos da malária é um marco importante, pois além de ter baixo custo, essa molécula possui mecanismo único de superar a resistência desenvolvida pelo P. falciparum”, afirmou Antoniana Krettli, coordenadora do estudo.

A patente também amplia as possibilidades de cooperação internacional para financiar as próximas etapas de desenvolvimento do tratamento.

A aprovação da patente nos Estados Unidos pode facilitar acordos internacionais para acelerar pesquisas, testes clínicos e futuras etapas de produção do medicamento.

O que ainda falta para o tratamento chegar aos pacientes

Apesar dos resultados considerados promissores, o DAQ ainda não pode ser utilizado como medicamento.

Os pesquisadores afirmam que o composto precisa avançar por testes pré-clínicos e clínicos antes de chegar aos pacientes. Entre os próximos passos estão estudos de toxicidade, definição de doses seguras e desenvolvimento da formulação farmacêutica.

As pesquisas contaram com colaboração da University of California San Francisco (UCSF), Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e seguem em andamento com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Para Antoniana Krettli, a própria estrutura da Fiocruz pode acelerar parte desse processo. A instituição possui atuação na Amazônia, região com incidência relevante da doença, além de experiência em diagnóstico, acompanhamento de pacientes e testes clínicos.

Pesquisadores alertam que o desenvolvimento de novos medicamentos precisa ocorrer antes que os tratamentos atuais percam eficácia em larga escala. Sem novas alternativas terapêuticas, regiões mais vulneráveis podem enfrentar aumento de internações, dificuldade de controle da doença e maior pressão sobre sistemas públicos de saúde.

Os pesquisadores afirmam que novas terapias para tratamento contra malária resistente precisam ser desenvolvidas antes que os medicamentos atuais percam eficácia em larga escala. Para especialistas, antecipar o avanço da resistência antimalárica pode evitar futuras limitações terapêuticas em regiões onde a doença continua sendo uma ameaça recorrente à saúde pública.

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Caroll Medeiros

Caroll Medeiros é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Integra a equipe do Boa Notícia Brasil, contribuindo com reportagens pautadas por checagem rigorosa, ética profissional e compromisso com temas de interesse público.

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