A arborização urbana entrou no centro da estratégia do governo federal para reduzir os impactos das ilhas de calor nas cidades brasileiras. Com o lançamento do edital ArborizaCidades, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) vai destinar R$ 19 milhões para ampliar áreas verdes urbanas em municípios de médio porte, com prioridade para bairros periféricos mais vulneráveis ao calor extremo.
Nas grandes cidades, regiões periféricas costumam concentrar menos árvores, mais concreto e temperaturas superiores às registradas em áreas mais arborizadas. Segundo o ministério, bairros com cobertura arbórea acima de 40% podem registrar redução de até 5°C.
A proposta transforma a arborização urbana em política de adaptação climática, saúde pública e redução das desigualdades territoriais. O objetivo é reduzir os efeitos das ilhas de calor justamente nas regiões historicamente menos atendidas pelo planejamento urbano.
O estudo “Saúde e Ondas de Calor no Brasil”, lançado junto à coletânea de arborização urbana do governo federal, relaciona eventos extremos de temperatura ao aumento da mortalidade, das internações hospitalares e da pressão sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), principalmente entre idosos, crianças e populações socialmente vulneráveis.
Dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que um terço da população brasileira vive em ruas sem arborização, cenário que amplia os efeitos do calor extremo em áreas urbanas densamente ocupadas.
Periferias sem árvores concentram mais calor nas cidades brasileiras
Durante décadas, a arborização urbana ficou concentrada em regiões centrais e bairros de maior renda. O novo edital tenta alterar essa lógica ao direcionar recursos para periferias mais expostas às altas temperaturas.
Segundo o ministro João Paulo Capobianco, a proposta busca equilibrar a distribuição de áreas verdes urbanas nas cidades brasileiras. A medida amplia o papel da infraestrutura verde no planejamento urbano e coloca as árvores como ferramenta de proteção climática.
A diferença de cobertura vegetal entre bairros ricos e periferias ampliou o que especialistas classificam como desigualdade climática urbana. Em regiões com menos árvores e maior concentração de asfalto e concreto, o calor tende a permanecer por mais tempo, inclusive durante a noite.
Isso afeta diretamente a rotina da população, com casas menos ventiladas, ruas sem sombra e maior exposição às altas temperaturas ao longo do dia.
Ambientes urbanos mais quentes também elevam o uso de ventiladores e ar-condicionado, aumentando gastos com energia elétrica, principalmente entre famílias de baixa renda.
A expansão da arborização urbana ganhou papel estratégico porque ajuda a reduzir ilhas de calor, melhora a infiltração da água da chuva e diminui impactos provocados pela impermeabilização do solo.
Além da sombra, as árvores ajudam a reduzir a temperatura porque diminuem o aquecimento excessivo do concreto e do asfalto, melhorando o microclima urbano.
Infraestrutura verde ganha espaço contra calor extremo nas periferias
O lançamento do ArborizaCidades ocorreu durante o Encontro do Programa Cidades Verdes Resilientes, em Brasília, onde também foram apresentados projetos de Soluções Baseadas na Natureza (SBN) implantados em comunidades vulneráveis.
Um dos exemplos apresentados veio da comunidade Alto do Coqueiro, em Ilhéus, na Bahia. Moradores participaram da recuperação ambiental da área usando técnicas naturais para enfrentar erosão, descarte irregular de lixo e degradação da encosta.
O projeto implantou viveiro de mudas comunitário, ecoponto, terraceamento da encosta e estruturas de contenção feitas com bambu, pneus reaproveitados e fibra de coco. A iniciativa foi desenvolvida em parceria com a Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB).
As intervenções mostram como soluções de infraestrutura verde começaram a ganhar espaço em cidades brasileiras diante do alto custo das obras convencionais. Além de reduzir impactos ambientais, os projetos ajudam na contenção de encostas e na recuperação de áreas degradadas.
As Soluções Baseadas na Natureza também passaram a ser tratadas como ferramenta de resiliência climática urbana, principalmente em áreas vulneráveis ao calor intenso, erosão e enchentes.
Governo tenta expandir arborização urbana sem repetir erros históricos
Outro eixo da política é a criação de orientação técnica para os municípios. O governo lançou a Coletânea Brasileira de Arborização Urbana, formada por cinco manuais sobre manejo, biodiversidade e planejamento da cobertura verde urbana.
O objetivo é evitar problemas históricos da arborização improvisada, como espécies inadequadas que danificam calçadas, interferem na rede elétrica ou apresentam baixa adaptação ao ambiente urbano.
O material também orienta cidades sobre o uso de árvores nativas brasileiras, capazes de ampliar biodiversidade, atrair fauna local e melhorar serviços ecossistêmicos urbanos.
A arborização urbana passa, assim, a integrar uma política mais ampla de cidades resilientes e adaptação às mudanças climáticas. O tema ganhou força porque conecta calor urbano, saúde pública, desigualdade territorial e qualidade de vida.
Com prazo até 6 de julho para envio das propostas, o governo tenta acelerar um modelo de cidade mais preparada para enfrentar eventos climáticos extremos usando áreas verdes como parte da infraestrutura urbana essencial.