Ufal aprova cotas trans na graduação e amplia pressão por inclusão nas federais

A Ufal aprovou cotas trans na graduação com reserva de 2% das vagas. Medida amplia inclusão de pessoas trans no ensino superior.
Entrada da Ufal, universidade que aprovou cotas trans na graduação com reserva de vagas para pessoas trans
Ufal aprovou política de cotas trans na graduação e reservará 2% das vagas para pessoas trans a partir de 2026. (Foto: Reprodução)

Historicamente afastadas do ensino superior por evasão escolar, discriminação e vulnerabilidade social, pessoas trans passarão a ter reserva de vagas na graduação da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). A instituição aprovou uma política de ações afirmativas que destina 2% das vagas dos cursos de graduação à população trans a partir do segundo semestre de 2026. Cotas trans na Ufal pressiona outras federais por políticas de inclusão.

A medida garante ao menos uma vaga por curso, turno e local de oferta e coloca a Ufal dentro do avanço das universidades federais que passaram a ampliar políticas de inclusão voltadas à população trans.

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A política afirmativa amplia o acesso de pessoas trans à graduação federal e acompanha um movimento que cresce nas instituições públicas brasileiras. A iniciativa tenta enfrentar uma das desigualdades mais persistentes no ambiente educacional: a dificuldade histórica de inclusão da população trans no ensino superior.

A política contempla pessoas travestis, transexuais, transgênero, não binárias e pessoas com vivências de variabilidade de gênero cuja identidade não corresponde ao sexo atribuído no nascimento.

Além de ampliar o acesso à graduação, a reserva de vagas para estudantes trans sinaliza uma mudança no papel das universidades diante de grupos historicamente afastados dos espaços acadêmicos formais. A instituição também prevê ações de permanência estudantil, acolhimento psicossocial e suporte em saúde para estudantes ingressantes.

O avanço ocorre em um cenário no qual mais de 40 universidades públicas brasileiras já adotam políticas afirmativas voltadas à inclusão de pessoas trans, segundo a própria Ufal. A Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) foi uma das primeiras federais a implementar cotas trans na graduação, em 2018, marco que abriu caminho para a expansão dessas políticas no país.

Dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) e de pesquisas sobre exclusão educacional apontam que discriminação, evasão escolar e vulnerabilidade social ainda impactam diretamente o acesso da população trans à formação superior e ao mercado formal de trabalho no Brasil.

Como vão funcionar as cotas trans na graduação da Ufal

A política afirmativa aprovada pelo Conselho Universitário (Consuni) estabelece uma reserva mínima de 2% das vagas ofertadas por curso, turno e local de oferta, com garantia de pelo menos uma vaga em cada graduação.

O reitor Josealdo Tonholo destacou que a universidade já adotava ações afirmativas para estudantes trans na pós-graduação desde 2022 e afirmou que a nova medida acompanha a expansão das políticas de inclusão no país.

Segundo ele, a reserva de vagas para pessoas trans não reduz as vagas da ampla concorrência. As cotas funcionarão como uma subcota dentro das vagas já destinadas a estudantes que cursaram integralmente o ensino médio em escolas públicas.

A implementação ocorrerá em duas etapas. No semestre 2026.2, o ingresso será feito por meio de processo seletivo próprio. A partir de 2027, as vagas reservadas para estudantes trans deverão ser incorporadas ao Sistema de Seleção Unificada (Sisu).

Ufal amplia apoio psicológico e assistência para estudantes trans

Um dos diferenciais da política afirmativa para pessoas trans é a preocupação da universidade com a permanência estudantil.

Nos últimos anos, universidades passaram a ampliar o debate sobre permanência universitária, conceito que envolve apoio psicológico, assistência estudantil e condições para que estudantes consigam concluir a graduação.

A Ufal criou grupos de trabalho voltados ao acolhimento psicossocial, suporte econômico e acompanhamento institucional. A proposta também prevê formação de servidores técnicos e administrativos para atendimento qualificado da população trans.

O professor Waldemar Neves afirmou que a instituição está estruturando uma rede de assistência com psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros, psiquiatras e endocrinologistas.

Na prática, a ampliação de cotas trans na Ufal tenta enfrentar um dos principais desafios das políticas de inclusão educacional: garantir acesso à graduação sem ignorar barreiras sociais e econômicas que podem comprometer a trajetória acadêmica dos estudantes.

A Faculdade de Medicina (Famed) e o Hospital Universitário (HU) já desenvolvem ações voltadas ao atendimento da população trans, o que deve ampliar a estrutura de cuidado para os futuros estudantes ingressantes.

Universidades federais ampliam cotas trans no Brasil

Nos últimos anos, as políticas afirmativas deixaram de se concentrar apenas em critérios raciais e sociais e passaram a incluir debates sobre identidade de gênero, permanência universitária e combate à discriminação institucional.

A ampliação das cotas trans acompanha a pressão crescente por políticas de permanência, inclusão e combate à discriminação nas universidades federais.

Ao incorporar as vagas para pessoas trans ao Sisu a partir de 2027, a Ufal transforma a medida em parte do fluxo regular de ingresso na graduação.

A universidade também definiu mecanismos de monitoramento das ações afirmativas. O percentual de vagas reservadas será reavaliado pelo Consuni a cada dez anos e poderá ser alterado caso haja mudanças na legislação federal sobre o tema.

Acesso à graduação pode ampliar renda e inserção profissional de pessoas trans

O acesso de pessoas trans à graduação costuma ter impacto que vai além da sala de aula.

Especialistas em educação associam o ensino superior ao aumento das oportunidades profissionais e da renda de grupos historicamente excluídos, o cenário que amplia cotas trans na Ufal favorece essa perspectiva.

No caso da população trans, que frequentemente enfrenta exclusão escolar e dificuldades de empregabilidade, a ampliação desse acesso ganha peso adicional dentro das políticas de inclusão educacional.

A presença maior de estudantes trans nas universidades também tende a ampliar diversidade na produção científica, na formação profissional e nos serviços públicos.

Ao ampliar o acesso de pessoas trans à graduação, a Ufal também amplia a presença dessa população em áreas profissionais, científicas e acadêmicas historicamente pouco acessíveis. O impacto da medida ultrapassa o ambiente universitário e alcança setores formados diretamente pelas universidades públicas, como saúde, educação, pesquisa e serviço público.

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Caroll Medeiros

Caroll Medeiros é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Integra a equipe do Boa Notícia Brasil, contribuindo com reportagens pautadas por checagem rigorosa, ética profissional e compromisso com temas de interesse público.

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