Pessoas soropositivos passaram a integrar uma nova possibilidade de doação de órgãos após médicos realizarem o primeiro transplante pulmonar entre um doador e um receptor com HIV. A cirurgia ocorreu em 21 de março no NYU Langone Health, nos Estados Unidos, e foi divulgada na última sexta-feira (19/06).
O receptor foi Bertrand Nelson, de 56 anos, morador de Nova Jersey. Ele recebeu dois pulmões e um fígado de doadores falecidos. Um dos pulmões veio de uma pessoa que também vivia com o vírus da imunodeficiência humana (HIV).
O procedimento reflete décadas de avanços nos tratamentos antirretrovirais. Atualmente, muitas pessoas conseguem manter a carga viral em níveis indetectáveis e alcançar expectativa de vida prolongada.
Com essa evolução, pacientes soropositivos passaram a ser vistos não apenas como receptores, mas também como potenciais doadores. Assim, um grupo historicamente excluído dos programas de transplante passou a participar de estratégias de doação de órgãos.
Lei aprovada nos EUA permitiu uso de órgãos de doadores soropositivos
Durante muitos anos, a legislação norte-americana proibiu o transplante de órgãos provenientes de pessoas com HIV. Esse quadro começou a mudar em 2013, com a aprovação da Lei HOPE (HIV Organ Policy Equity Act).
A norma autorizou transplantes entre pessoas soropositivas dentro de protocolos específicos. Inicialmente, os procedimentos envolveram rins e fígados, enquanto transplantes pulmonares permaneceram sob avaliação experimental.
Mais de uma década depois, a cirurgia realizada pela equipe do NYU Langone levou essa política a uma nova etapa. O caso mostrou que órgãos antes descartados podem ser utilizados em procedimentos altamente especializados.
Transplante entre pacientes com HIV acompanha mudança no perfil
Paralelamente às mudanças regulatórias, a expectativa de vida das pessoas soropositivas aumentou. Com isso, cresceram os casos de doenças pulmonares, cardíacas e hepáticas que podem exigir transplantes.
Ao mesmo tempo, centros especializados enfrentam dificuldades para encontrar compatibilidade entre doadores e receptores. Nesse contexto, o uso de órgãos provenientes de pessoas com HIV passa a ser estudado como alternativa adicional para determinados pacientes.
Além disso, o procedimento fornece novos dados para pesquisas sobre transplantes envolvendo receptores soropositivos, área que ainda reúne número limitado de experiências clínicas.
Após 67 dias internado, paciente voltou para casa
Nelson recebeu os diagnósticos de HIV e sarcoidose em 2000. Duas décadas depois, uma forma grave de pneumonia provocou a retomada da doença inflamatória e acelerou a perda da função pulmonar.
Como consequência, ele passou a depender de oxigênio suplementar e entrou na fila de transplantes. Meses depois, surgiu a compatibilidade que tornou possível o procedimento realizado em março.
Após permanecer internado por 67 dias, Nelson recebeu alta hospitalar e iniciou a reabilitação física. Desde então, ele afirma que espera incentivar a doação de órgãos entre pessoas com HIV e contribuir para reduzir o estigma ainda associado ao vírus.
