Uma tecnologia desenvolvida pela Universidade Federal do Ceará (UFC) que combina um composto da castanha de caju com nanopartículas magnéticas para o tratamento do câncer colorretal acaba de receber proteção do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Em testes laboratoriais, o sistema apresentou atividade seletiva contra células tumorais, com menor efeito sobre células saudáveis.
A invenção representa a centésima patente concedida à universidade. O desenvolvimento reúne pesquisadores do Laboratório de Polímeros e Inovação de Materiais (LabPIM) e do Laboratório de Oncologia Experimental (LOE), vinculado ao Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM).
Os resultados ainda pertencem à fase laboratorial e não correspondem a um tratamento disponível para pacientes. A patente assegura a proteção da invenção enquanto novas etapas poderão avaliar seu desempenho antes de uma eventual aplicação clínica.
Além disso, o registro da propriedade intelectual cria condições para futuras parcerias voltadas ao desenvolvimento da tecnologia, etapa necessária para aproximar os resultados obtidos em laboratório de possíveis aplicações.
Como a castanha pode contribuir para o tratamento do câncer
A tecnologia reúne dois mecanismos que atuam de forma complementar. O ácido anacárdico, extraído do Líquido da Casca da Castanha de Caju (LCC), exerce ação biológica sobre células tumorais. Ao mesmo tempo, as nanopartículas magnéticas podem gerar aquecimento localizado para auxiliar na regressão do tumor.
Em conjunto, esses dois componentes atuam de maneira integrada. Segundo a coordenadora do LabPIM, professora Nágila Ricardo, essa combinação associa a atividade biológica do ácido anacárdico ao potencial terapêutico das nanopartículas magnéticas.
Nos testes iniciais, o sistema apresentou atividade seletiva contra células de câncer colorretal, preservando em maior medida as células saudáveis. Esse resultado embasou o pedido que culminou na concessão da patente pelo INPI.
Patente protege a tecnologia antes da chegada ao mercado
Nessa etapa da pesquisa, a concessão de uma patente não significa que um medicamento esteja pronto para uso clínico. O registro garante a proteção da propriedade intelectual enquanto a tecnologia segue para novas fases de validação e aperfeiçoamento.
Segundo a coordenadora da Coordenadoria de Propriedade Intelectual e Transferência de Tecnologia (Cpitt), Cláudia do Ó Pessoa, o avanço da tecnologia dependerá da participação conjunta de universidades, empresas, investidores e instituições públicas para alcançar níveis mais elevados de desenvolvimento e chegar ao setor produtivo.
A UFC soma 100 cartas-patente concedidas pelo INPI e cerca de 653 ativos de propriedade intelectual, entre pedidos de patente, desenhos industriais e registros de software. Esse patrimônio tecnológico fortalece a capacidade da universidade de negociar futuras transferências de tecnologia.
Composto da castanha também impulsiona outras pesquisas
O ácido anacárdico também integra outra patente da universidade voltada a preparações dermatológicas e cosméticas. Nessa tecnologia, o composto foi encapsulado em nanopartículas lipídicas para aplicações tópicas com propriedades antimicrobianas, antioxidantes e antiacne.
Além das pesquisas em saúde, derivados do Líquido da Casca da Castanha de Caju são estudados para a produção de biolubrificantes e aplicações industriais. O Ceará responde por 71,2% da produção brasileira de castanha de caju, com 141 mil toneladas, segundo o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA).
O Líquido da Casca da Castanha de Caju corresponde a cerca de 25% do peso da casca, fator que favorece seu aproveitamento em diferentes linhas de pesquisa. A disponibilidade desse subproduto vem permitindo o desenvolvimento de tecnologias que atendem desde aplicações industriais até investigações voltadas à saúde.
