Marco Legal Mães na Ciência: nova lei do Rio pode evitar perda de talentos femininos na pesquisa

Pesquisadora realiza experimento em laboratório após avanço do Marco Legal Mães na Ciência no Rio de Janeiro
Nova legislação busca ampliar o apoio a mães pesquisadoras e fortalecer a permanência feminina na produção científica.(Foto: Julia Koblitz)

O Rio de Janeiro deu um passo importante para ampliar a presença de mulheres na pesquisa científica ao sancionar o Marco Legal Mães na Ciência. A nova legislação estabelece, a partir desta segunda-feira (08/06), diretrizes para apoiar mães e adotantes na graduação, pós-graduação e atividades de pesquisa, criando condições mais justas para permanência e progressão acadêmica.

A medida interessa não apenas às pesquisadoras diretamente beneficiadas. Ao reduzir obstáculos que historicamente dificultam a continuidade da carreira acadêmica durante a maternidade, o estado busca preservar talentos, ampliar a participação feminina na ciência e fortalecer a produção de conhecimento em universidades e centros de pesquisa.

Apoio

Em um cenário em que muitas mulheres enfrentam dificuldades para conciliar trabalho de cuidado e atividade científica, o novo marco reconhece que períodos ligados à gestação, parto, adoção e criação dos filhos podem impactar trajetórias acadêmicas sem diminuir a capacidade de produção intelectual. O objetivo é evitar que a maternidade na carreira acadêmica se transforme em um fator de exclusão ou atraso profissional.

Esse tipo de iniciativa dialoga com um desafio já identificado por estudos nacionais e internacionais sobre a carreira acadêmica feminina. Pesquisas apontam que a chegada dos filhos costuma coincidir com uma redução temporária na produção científica das pesquisadoras, fenômeno frequentemente associado à chamada penalidade da maternidade. O efeito pode impactar publicações, participação em projetos e acesso a oportunidades de financiamento justamente em uma fase decisiva da carreira.

O impacto potencial vai além da equidade de gênero. Ao favorecer a permanência feminina na pesquisa, o Marco Legal Mães na Ciência também contribui para a retenção de talentos científicos, para a continuidade de projetos acadêmicos e para o fortalecimento da capacidade de inovação das instituições de ensino superior.

Para a população, os efeitos podem aparecer de forma menos visível, mas igualmente relevantes. Pesquisas desenvolvidas em universidades e centros científicos ajudam a gerar avanços na saúde, educação, sustentabilidade, tecnologia e inovação social. Ao criar condições para que mais mulheres permaneçam na carreira acadêmica, o estado busca ampliar a capacidade de produzir soluções que podem beneficiar a sociedade no longo prazo.

A Lei 11.213, publicada no Diário Oficial do Estado, proíbe critérios discriminatórios contra candidatas em processos seletivos e renovações de bolsas de pesquisa, ensino e extensão por motivos relacionados à gestação, parto, nascimento de filho, adoção ou guarda judicial para adoção.

A legislação também impede perguntas sobre planejamento familiar em entrevistas, avaliações e documentos de inscrição, salvo quando a própria candidata desejar abordar o tema.

Mais do que combater discriminação, a iniciativa busca criar um ambiente acadêmico capaz de reter profissionais qualificadas em diferentes etapas da formação científica. Essa permanência tem impacto direto sobre universidades, laboratórios e grupos de pesquisa que dependem da continuidade dos projetos desenvolvidos por estudantes e pesquisadoras mães.

Ao garantir condições mais equilibradas para cientistas mães e mulheres pesquisadoras, o estado procura reduzir perdas de capital intelectual e ampliar a presença feminina em áreas estratégicas do desenvolvimento científico.

Reconhecimento da maternidade passa a integrar a avaliação acadêmica

Um dos avanços mais relevantes da nova legislação é o reconhecimento do trabalho de cuidado na análise de mérito acadêmico, produtividade científica e currículos.

A regra poderá ser considerada em processos seletivos para bolsas, monitorias, iniciação científica, extensão, mestrado, doutorado e pós-doutorado.

Esse reconhecimento representa uma mudança importante porque considera fatores que muitas vezes influenciam a trajetória acadêmica das mulheres sem serem refletidos nos critérios tradicionais de avaliação. Ao incorporar essa perspectiva, o Marco Legal Mães na Ciência busca tornar os processos mais compatíveis com a realidade de pesquisadoras mães que conciliam atividades científicas, formação acadêmica e responsabilidades familiares.

A mudança também responde a uma demanda crescente da comunidade científica por modelos de avaliação que considerem diferentes trajetórias profissionais. Nos últimos anos, universidades e agências de fomento passaram a discutir formas de incorporar períodos de licença-maternidade na análise curricular, reconhecendo que interrupções relacionadas ao cuidado familiar não refletem necessariamente menor capacidade de pesquisa ou produção de conhecimento.

A medida também reforça uma discussão sobre equidade de gênero na ciência, reconhecendo que oportunidades iguais dependem da compreensão das diferentes condições vividas por homens e mulheres ao longo da carreira acadêmica.

Faperj amplia apoio às cientistas mães

A nova legislação fortalece iniciativas já adotadas pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) para ampliar o apoio às pesquisadoras.

Entre elas está o Programa de Apoio às Cientistas Mães, destinado a pesquisadoras vinculadas a instituições de pesquisa fluminenses. A iniciativa oferece auxílio de até R$ 120 mil por projeto para apoiar a retomada e a continuidade da produção científica de mulheres que tiveram filhos nos últimos anos e também de mães de crianças com deficiência.

A fundação também considera o período de licença-maternidade na avaliação de currículos acadêmicos, concede licença-maternidade para bolsistas e permite a inclusão de despesas relacionadas ao cuidado infantil em determinados editais de fomento.

Segundo a presidente da Faperj, Caroline Alves, apoiar mães cientistas significa fortalecer não apenas trajetórias individuais, mas também a capacidade científica do estado.

Além do apoio financeiro, as medidas ajudam a reduzir barreiras que tradicionalmente dificultam o avanço feminino em ambientes acadêmicos altamente competitivos e ampliam as oportunidades para que pesquisadoras avancem para posições de liderança científica.

O incentivo à participação feminina na ciência também ocorre por meio do Programa de Apoio à Jovem Cientista Mulher Dra. Tatiana Sampaio, voltado a pesquisadoras com até 12 anos de doutoramento. Em 2026, a iniciativa recebeu investimento de R$ 10 milhões para ampliar a presença de mulheres em posições de liderança científica.

O debate também envolve a retenção de talentos científicos. A formação de mestres, doutores e pesquisadores exige anos de investimento público, orientação acadêmica e desenvolvimento técnico. Políticas voltadas à permanência feminina na pesquisa ajudam a evitar a perda desse capital intelectual e contribuem para que mais mulheres avancem em suas trajetórias acadêmicas.

O conjunto dessas políticas aponta para um objetivo mais amplo: construir um ambiente acadêmico em que maternidade e carreira científica não sejam vistas como caminhos incompatíveis. Ao ampliar a permanência de mulheres pesquisadoras na academia, o estado também favorece a diversidade de perspectivas na produção de conhecimento, fator frequentemente associado ao avanço científico e à criação de soluções mais representativas para a sociedade.

Ao fortalecer o apoio às mães na ciência, o Rio de Janeiro aposta na valorização das pesquisadoras, na ampliação da liderança feminina na ciência e no desenvolvimento do conhecimento como ativo estratégico para o futuro. O potencial benefício vai além das universidades. Quanto maior a capacidade de manter talentos científicos em atividade, maiores são as chances de transformar pesquisas em soluções para desafios que afetam diretamente a população, da saúde à educação, da inovação tecnológica ao desenvolvimento sustentável.

Foto de Caroll Medeiros

Caroll Medeiros

Caroll Medeiros é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Integra a equipe do Boa Notícia Brasil, contribuindo com reportagens pautadas por checagem rigorosa, ética profissional e compromisso com temas de interesse público.

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