O sonho de criar uma marca própria de roupas fez Augusto Cesar Sabino Costa, de 34 anos, enxergar no trabalho por aplicativo mais do que uma fonte de renda. Cada entrega passou a representar uma oportunidade de reunir recursos para investir em um projeto que ele cultiva desde a adolescência: empreender.
Entregador por aplicativo, Augusto organiza a rotina para conciliar o trabalho com os planos para o futuro. A flexibilidade dos horários permite que ele mantenha uma renda enquanto se prepara para transformar a ideia em negócio. Para ele, essa liberdade faz toda a diferença.
“O que me levou a trabalhar pelo aplicativo foi a flexibilidade e a necessidade também. Eu consigo fazer meus horários, posso trabalhar à noite, posso trabalhar de dia. Existe toda uma matemática para fechar o mês, mas tenho essa liberdade.”
O desejo de empreender nasceu muito antes das entregas. Filho de uma empregada doméstica que trabalhou por 30 anos na profissão, ele conta que sempre buscou construir um caminho diferente para a família. Hoje, Augusto afirma que utiliza o trabalho por aplicativo para juntar recursos e avançar, aos poucos, no projeto da futura marca de roupas. Para ele, o emprego atual não representa o destino da carreira, mas um passo importante para alcançar esse objetivo.
Trabalho por aplicativo ajuda a tirar projetos do papel
A trajetória de Augusto reflete um cenário de expansão do trabalho por aplicativo no Brasil. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE, mostram que 1,7 milhão de pessoas trabalha por meio de plataformas digitais, um crescimento de 25,4% em comparação com 2024.
Para o professor e pesquisador colaborador do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, René Mendes, esse avanço não pode ser explicado apenas pela busca por autonomia. Segundo ele, o crescimento também está relacionado às transformações do mercado de trabalho e à procura por alternativas de geração de renda diante das mudanças nas oportunidades de emprego formal.
Um estudo do Observatório do Trabalho e da Classe Trabalhadora (OTCT) também aponta que o aumento do trabalho por conta própria e por plataformas fortalece a cultura do empreendedorismo e amplia a busca por trajetórias profissionais mais independentes.
Embora essa realidade seja diferente para cada trabalhador, Augusto vê nos aplicativos a possibilidade de financiar um projeto de longo prazo. O dinheiro obtido nas entregas ajuda a manter vivo o plano de lançar a própria marca de roupas.
Flexibilidade pede mais proteção aos trabalhadores
Especialistas avaliam que a flexibilidade proporcionada pelos aplicativos representa uma oportunidade importante para muitas pessoas, mas defendem que esse modelo também seja acompanhado de mecanismos que ofereçam mais segurança aos trabalhadores.
O professor Luciano Nakabashi, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da USP, afirma que jornadas mais flexíveis podem ampliar as oportunidades de trabalho, desde que existam garantias mínimas, como seguro contra acidentes, maior transparência na remuneração e pontos de apoio com acesso à água, banheiros e locais de descanso.
Enquanto o debate sobre a regulamentação das plataformas continua, Augusto segue trabalhando para transformar um objetivo antigo em realidade. Para ele, cada entrega representa mais do que uma corrida concluída: é um investimento no dia em que pretende colocar a própria marca de roupas no mercado.
