Uma proposta defendida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) pode abrir mais espaço para o investimento em educação em países com alta dívida externa. A agência recomenda ampliar acordos que permitem converter parte dessas dívidas em recursos destinados a escolas, formação de professores e apoio aos estudantes. Segundo a organização, o mecanismo já produziu resultados concretos em diferentes países.
A recomendação foi apresentada durante uma cúpula global sobre educação realizada em Paris. Para a Unesco, transformar parte da dívida externa em investimentos educacionais ajuda governos a fortalecer o ensino sem aumentar a pressão sobre os orçamentos públicos.
Hoje, o pagamento da dívida limita os recursos disponíveis para a educação em diversas nações. A agência calcula que 113 países, onde vivem cerca de 6,1 bilhões de pessoas, gastam mais com o serviço da dívida do que com a educação de suas populações.
Como funciona a conversão da dívida em investimento
Os acordos permitem que um país renegocie ou refinancie parte de sua dívida externa. Em vez de destinar toda a economia obtida ao pagamento de credores, os recursos passam a financiar ações voltadas à educação.
Esse dinheiro pode ser aplicado na construção de escolas, na capacitação de professores, na melhoria da infraestrutura escolar, na compra de materiais didáticos e em programas de apoio aos estudantes.
Segundo a Unesco, ampliar esse modelo pode ajudar países de baixa renda a preservar investimentos essenciais e avançar nas metas globais de universalização do ensino.
Modelo já financiou escolas e projetos educacionais
A proposta não parte de uma ideia inédita. A Unesco cita experiências que demonstram o potencial desse mecanismo.
Em 2023, um acordo entre a França e a Costa do Marfim ajudou a financiar a construção de mais de 30 escolas. Outro programa, desenvolvido entre Espanha e Peru, financiou 50 projetos educacionais ao longo de dez anos.
O Banco Mundial também começou recentemente a apoiar esse tipo de operação, ampliando o interesse por mecanismos que unem sustentabilidade financeira e desenvolvimento social.
Educação enfrenta queda no financiamento internacional
Além do peso crescente das dívidas, a Unesco alerta para outro desafio: a redução da ajuda internacional destinada à educação.
O Relatório Global de Monitoramento da Educação estima que esse apoio poderá cair até 30% entre 2023 e 2027. Em 2024, a ajuda global ao setor diminuiu 8% em relação ao ano anterior, enquanto os recursos destinados à educação básica recuaram 15%.
Na avaliação da agência, ampliar os acordos de conversão da dívida em investimento em educação pode ajudar os países a proteger os sistemas de ensino mesmo em um cenário de restrição orçamentária e redução do financiamento internacional.
