A memória recente impôs obstáculos à rotina universitária de Conceição de Maria Sousa Soares. Aos 70 anos e diagnosticada com Alzheimer durante a graduação, a aluna encontrou nos cadernos uma maneira de continuar acompanhando o curso de Pedagogia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), em Imperatriz.
Ela anotava datas, compromissos, orientações dos professores e informações das disciplinas para consultar sempre que precisasse. Enquanto recorria ao papel para compensar os esquecimentos do dia a dia, Conceição preservava lembranças mais antigas que acabaram se tornando a base de seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC).
No trabalho, a estudante recuperou episódios da infância na zona rural do Piauí, da alfabetização tardia, da mudança para o Maranhão e da própria passagem pela universidade. Parte dessas memórias foi narrada oralmente e depois transcrita para integrar o TCC.
O resultado foi apresentado no curso de Pedagogia sob o título “Relatos e memórias da escolarização de uma mulher piauiense”. A apresentação representa uma etapa importante da graduação, mas as fontes consultadas não confirmam ainda a colação de grau de Conceição.
Aluna com Alzheimer fez das anotações parte da rotina universitária
O uso dos cadernos se tornou uma ferramenta prática para Conceição. Segundo o orientador José Edilmar de Sousa, ela registrava inclusive quando deveria voltar à universidade e as datas de início das disciplinas. Dessa forma, conseguia consultar informações que a memória imediata já não mantinha com a mesma facilidade.
A família também participou desse processo. Além de acompanhar a estudante, os familiares contrataram uma neuropsicopedagoga para auxiliar na mediação das narrativas reunidas durante a elaboração do trabalho acadêmico.
O curso adotou ainda um formato compatível com as necessidades apresentadas pela estudante. Professores e a coordenação avaliaram alternativas, e o colegiado de Pedagogia autorizou o desenvolvimento do TCC no formato de Portfólio de Experiências.
Infância e alfabetização tardia viraram parte do TCC
Conceição nasceu em Veredinha, na zona rural de Amarante, no Piauí. Sua escolarização teve interrupções e ela foi alfabetizada tardiamente. Décadas depois, justamente essa relação construída aos poucos com a educação passou a ocupar o centro do trabalho apresentado na universidade.
O portfólio reúne memórias da infância, da família, dos primeiros contatos com a escola e da mudança para o Maranhão. Também incorpora experiências da graduação, conectando diferentes períodos da vida da estudante em uma narrativa sobre sua própria formação.
O desejo de concluir o ensino superior vinha de muitos anos, segundo a filha Francisca Soares Lima. O marido de Conceição, já falecido, também a incentivava a continuar estudando.
Apresentação aproxima Conceição do antigo sonho de ser professora
Na banca, Conceição respondeu a perguntas relacionadas às experiências registradas no trabalho. Participaram da avaliação o orientador José Edilmar de Sousa e as professoras Francisca Melo Agapito e Késsia Mileny de Paulo Moura.
Ao longo da graduação, ela repetia que pretendia concluir o curso e se tornar professora. A apresentação do TCC colocou a estudante mais perto desse objetivo, sem apagar os cuidados necessários diante das dificuldades de memória relatadas durante sua formação.
Para a aluna com Alzheimer, as lembranças que permaneceram acessíveis deixaram de ser apenas registros pessoais e passaram a compor seu trabalho acadêmico. Agora, o próximo marco verificável da trajetória será a conclusão formal da graduação, etapa ainda não confirmada pelas fontes consultadas.