Aos 70 anos, aluna com Alzheimer transforma memórias que ainda preserva no próprio TCC

Conceição de Maria, de 70 anos, usou cadernos para lidar com falhas de memória e transformou lembranças da infância no trabalho final de Pedagogia.
Conceição de Maria Sousa Soares durante apresentação do TCC de Pedagogia na UFMA, aos 70 anos.
Aos 70 anos, Conceição de Maria Sousa Soares apresenta o TCC de Pedagogia na UFMA, em Imperatriz, após adaptar a rotina de estudos às dificuldades de memória. (Foto: arquivo pessoal)

A memória recente impôs obstáculos à rotina universitária de Conceição de Maria Sousa Soares. Aos 70 anos e diagnosticada com Alzheimer durante a graduação, a aluna encontrou nos cadernos uma maneira de continuar acompanhando o curso de Pedagogia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), em Imperatriz.

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Ela anotava datas, compromissos, orientações dos professores e informações das disciplinas para consultar sempre que precisasse. Enquanto recorria ao papel para compensar os esquecimentos do dia a dia, Conceição preservava lembranças mais antigas que acabaram se tornando a base de seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC).

No trabalho, a estudante recuperou episódios da infância na zona rural do Piauí, da alfabetização tardia, da mudança para o Maranhão e da própria passagem pela universidade. Parte dessas memórias foi narrada oralmente e depois transcrita para integrar o TCC.

O resultado foi apresentado no curso de Pedagogia sob o título “Relatos e memórias da escolarização de uma mulher piauiense”. A apresentação representa uma etapa importante da graduação, mas as fontes consultadas não confirmam ainda a colação de grau de Conceição.

Aluna com Alzheimer fez das anotações parte da rotina universitária

O uso dos cadernos se tornou uma ferramenta prática para Conceição. Segundo o orientador José Edilmar de Sousa, ela registrava inclusive quando deveria voltar à universidade e as datas de início das disciplinas. Dessa forma, conseguia consultar informações que a memória imediata já não mantinha com a mesma facilidade.

A família também participou desse processo. Além de acompanhar a estudante, os familiares contrataram uma neuropsicopedagoga para auxiliar na mediação das narrativas reunidas durante a elaboração do trabalho acadêmico.

O curso adotou ainda um formato compatível com as necessidades apresentadas pela estudante. Professores e a coordenação avaliaram alternativas, e o colegiado de Pedagogia autorizou o desenvolvimento do TCC no formato de Portfólio de Experiências.

Infância e alfabetização tardia viraram parte do TCC

Conceição nasceu em Veredinha, na zona rural de Amarante, no Piauí. Sua escolarização teve interrupções e ela foi alfabetizada tardiamente. Décadas depois, justamente essa relação construída aos poucos com a educação passou a ocupar o centro do trabalho apresentado na universidade.

O portfólio reúne memórias da infância, da família, dos primeiros contatos com a escola e da mudança para o Maranhão. Também incorpora experiências da graduação, conectando diferentes períodos da vida da estudante em uma narrativa sobre sua própria formação.

O desejo de concluir o ensino superior vinha de muitos anos, segundo a filha Francisca Soares Lima. O marido de Conceição, já falecido, também a incentivava a continuar estudando.

Apresentação aproxima Conceição do antigo sonho de ser professora

Na banca, Conceição respondeu a perguntas relacionadas às experiências registradas no trabalho. Participaram da avaliação o orientador José Edilmar de Sousa e as professoras Francisca Melo Agapito e Késsia Mileny de Paulo Moura.

Ao longo da graduação, ela repetia que pretendia concluir o curso e se tornar professora. A apresentação do TCC colocou a estudante mais perto desse objetivo, sem apagar os cuidados necessários diante das dificuldades de memória relatadas durante sua formação.

Para a aluna com Alzheimer, as lembranças que permaneceram acessíveis deixaram de ser apenas registros pessoais e passaram a compor seu trabalho acadêmico. Agora, o próximo marco verificável da trajetória será a conclusão formal da graduação, etapa ainda não confirmada pelas fontes consultadas.

Foto de Monique de Carvalho

Monique de Carvalho

Jornalista formada em Comunicação Social pela Fanor, com mais de 15 anos de experiência em marketing de conteúdo, produção digital, storytelling e comunicação de impacto. Já contribuiu para os portais Razões para Acreditar e Só Notícia Boa.

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